Capítulo Catorze |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

ENQUANTO EU CORRIA PELA TRILHA, SENTIA O CHÃO IRREGULAR SOB MEUS PÉS, OS galhos e espinhos arranhando meu rosto na escuridão. Eu praguejava baixinho e tropeçava a cada passo. O garoto havia começado a chorar em meus braços assim que o avô desaparecera de sua vista, mas era um choro quieto.




— Está tudo bem — eu disse, afagando suas costas. — Está tudo bem, amigão.

Não estava nada bem. Talvez as coisas melhorassem algum dia – se não para mim, para o garoto em meus braços. No entanto, primeiro eu precisava levá-lo até o local de evacuação sem que nenhum de nós morresse no caminho.

Era mais fácil falar do que fazer: ao emergir das árvores para uma clareira perto da cabana e ver o céu, prendi a respiração.

Estava claro como se fosse de dia, um azul claro pontilhado por pequenas explosões de tom roxo e rosa pastel por toda a linha do horizonte. Era como se o mundo inteiro estivesse em chamas. Talvez estivesse. As explosões ocorriam com mais rapidez do que eu conseguia contar.

Não consegui parar de pensar nisso. O pânico não ajudaria em nada, e mais tarde haveria tempo de sobra para lamentar. Brandon partiria em breve com a aeronave de evacuação, se é que já não havia partido. Tinham que ser nove Gardes. Brandon dissera isso, e de alguma forma, meus instintos confirmavam. Eu precisava levá-lo até a nave antes da decolagem.

O veículo de Brandon estava logo adiante. Um passo de cada vez.

Quando afivelei o cinto no garoto ao meu lado e disparei o piloto automático, a tela no console se iluminou em um mar de vermelho. O sistema ainda estava conectado a um satélite da FDL, que informava a situação em todo o planeta. A devastação se alastrara por toda a superfície de Lorien – como mostravam as áreas piscando em vermelho na tela – e por isso quase todos os trajetos de volta à aeronave de evacuação eram no mínimo arriscados. A rota que eu pegara para chegar até ali estava completamente obstruída.

Com menos uma opção, passar por Malka e retomar a rota original pelo ponto central me pareceu a melhor aposta. Liguei o piloto automático, acionando a maior velocidade que a nave poderia atingir, e respirei fundo. Ou funcionaria ou não. O motor começou a roncar. O veículo deu uma guinada para a frente, e saímos pela noite incandescente.

Então, me voltei para o garoto, que ainda chorava. Não tinha experiência alguma com crianças. Sequer era um Cêpan Mentor em treinamento. Quando eu o colocasse na nave, ele seguiria em direção qualquer que fosse seu grande destino e deixaria de ser problema meu.

Mas era terrível ouvi-lo chorar. Olhei nos olhos dele, que respirou fundo, enquanto seu choramingo diminuía. Era como se ele não quisesse que eu o visse naquele estado. Era como se estivesse tentando ser valente.

— Olha, garoto — eu disse. Quando falei, seus soluços diminuíram ainda mais. — As coisas vão ficar meio perigosas por um tempinho. Você precisa ser corajoso. Você é um Garde, sabia? Um dia, vai ter muitos poderes. Vai poder ser tudo o que quiser. Mas, primeiro, você tem que erguer a cabeça. Afinal de contas, você é o futuro de toda essa droga de raça loriena, ok?

O garoto me olhava, atento, e definitivamente havia parado de chorar. Ele estava prestando atenção em tudo que eu dizia, seus olhos estavam arregalados, e a boca aberta, formando um pequeno “o”.

— Entendeu, amigão? — perguntei. — Precisamos de você.

Ele me lançou um olhar severo e sacudiu o punho diante do meu rosto.

— Kow kow — ele disse.

— Isso — eu disse, sorrindo. — Kow kow está certo.

SKWONNNNKKK. SKWONNNNNK.

Instintivamente, tapei os ouvidos com as mãos em um sobressalto. O garoto soltou um ganido. O som que ouvimos era de algum tipo de buzina, profundo e estrondoso. Ressoou pelas as rodas da van e atingiu em cheio meus ossos.

Tive a sensação de que sabia o que era – o som de uma nave mogadoriana. Não poderia ser nenhuma outra coisa. Isso não era nada bom. Verifiquei o console. Estávamos chegando, mas ainda havia um longo caminho pela frente. A estrada diante de nós estava coberta de escombros, árvores caídas e cadáveres. Tentei não olhar para eles. À direita, havia um vazio no céu onde os Pináculos de Elkin um dia estiveram. À distância, a fumaça das ruínas da Capital se aproximava.

Havíamos acabado de chegar ao Parque Eilon, nos arredores da cidade, quando fomos atingidos.

Não sei ao certo o que nos atingiu. Não era um míssil, ou estaríamos mortos. Talvez fossem estilhaços de uma bomba. Talvez fosse qualquer outra coisa. Na verdade, não importava. Seja lá o que fosse, uma explosão gigantesca havia acertado o veículo e nos mandado pelos ares. Tudo ficou escuro.

Recobrei a consciência ainda deitado. Minha cabeça sangrava e minha visão estava embaçada. Havia um guincho terrível estridente sobre minha cabeça. O garoto estava ajoelhado por cima de mim, me encarando com uma expressão de preocupação.

— Kow kow? — ele perguntou.

Olhei para cima na direção dele e vi o chão da van – os bancos, o painel central – acima de mim. Eu estava deitado com as costas na parte interior do teto. Estávamos de cabeça para baixo.

Cheio de dor, movi a cabeça e consegui ver, por uma janela recém estraçalhada, a grama do parque.

Eu não sabia o que faríamos. Não havia forma alguma de conseguirmos virar a van de cabeça para cima novamente, muito menos fazê-la funcionar. Escalei a janela estilhaçada, ignorando o vidro que arranhava meus braços. Depois de passar, eu me virei, estiquei o braço e puxei o garoto comigo. Rolamos juntos pela grama, sem fôlego.

SKKKWONNNK. SKKKWONKK.

Aquele barulho de novo. De repente, perto de mim, o garoto arregalou os olhos. Ficou de queixo caído. Eu virei e vi o monstro parado bem diante de nós, tão perto que eu podia sentir o fedor de seu hálito.

Era a coisa mais feia que eu já tinha visto, provavelmente uns três palmos mais alto do que eu, com a pele pálida e a boca repleta de dentes minúsculos e tortos, que eram mais pontiagudos e mais afiados que uma faca. Eu sabia como seus dentes eram porque ele estava sorrindo. Balançava a seu lado uma gigantesca espada curva.

Aquele, eu sabia, era um mogadoriano.

Com os olhos semicerrados, ele rosnou para nós. O som era grave e ameaçador, rouco e gutural. A besta ergueu a espada acima de sua cabeça.

Eu tentei. Eu tentei. Nós quase conseguimos. Mas tudo estava acabado. Era inútil fingir que meu corpo serviria de escudo para o garoto. Nós dois morreríamos pelo mesmo golpe.

Então, escutei a coisa mais estranha. Era uma melodia. Eu a reconheci. Antes que pudesse reagir, houve um intenso clarão, e a música ficou mais alta, tão alta que parecia sair de dentro do meu crânio.

Era a canção de Devektra. Era linda.

O mogadoriano cambaleou para trás e deixou cair a espada. Seu rosto se contorceu em uma máscara de dor horripilante. Ele soltou outro rosnado – na realidade, estava mais uma espécie de urro – e caiu de joelhos.

Eu nem parei para pensar. Sabia exatamente o que tinha que fazer. Eu me joguei de joelhos, agarrei a espada e, ofuscado pelos lampejos de luz branca ao meu redor, golpeei com toda a força que tinha. Um jato de sangue jorrou pelo ar quando a cabeça do monstro saiu rolando.

Eu nunca cheguei a vê-la. Não sei como ela nos encontrou, nem por que não se revelou. Provavelmente não houve tempo. Mas foi ela. Devektra havia me salvado. Mais importante, ela salvara o garoto.

Ele se levantou, me lançou um olhar provocador, aparentemente inabalado com o que acabara de acontecer, e apontou para algo caído na grama, a alguns metros de distância.

— Moto? — ele perguntou.

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