Capítulo Cinco |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

TERIA SIDO BOM PODER DIZER QUE MINHA PRIMEIRA SEMANA NA ADL PASSOU EM um piscar de olhos. Na realidade, ela se arrastou por uma eternidade ainda maior do que eu havia imaginado.




Rapp, pelo que percebi, ainda estava aprendendo nas aulas coisas que eu já tinha aprendido sozinho havia séculos, por isso eu mal podia contar com os trabalhos escolares para me manter interessado. É claro que eu podia ter contado à professora Orkun que já sabia tudo aquilo, mas preferi ficar quieto. Em vez disso, passava as aulas de cabeça baixa, assentindo durante as lições e tentando fingir que tudo aquilo era novidade para mim.

Sabia que estava sendo idiota. Já que tinha que ficar ali, deveria aproveitar para tentar aprender alguma coisa. Mas, de um jeito estranho, parecia que dessa forma eles ganhariam. Se desperdiçasse meu tempo, eu ainda estaria saindo dessa impune, certo?

As coisas não eram muito mais interessantes no refeitório. Assim como os outros alunos da Academia, eu ficava muito na minha. Quanto aos Cêpans Mentores, que tinham seus próprios Gardes para treinar, era bastante raro vê-los pelo campus, e os que comiam no refeitório em geral estavam muito ocupados cuidando de seus jovens Gardes para se misturar com aprendizes de engenharia como Rapp e eu.

Os únicos na Academia que se interessavam por mim eram os Gardes pequenos, que começavam a desenvolver seus Legados e alegravam um pouco a escola. Em Lorien, as crianças da Garde eram criadas pelos avós até os onze anos de idade, quando eram enviadas a locais como a ADL para treinar com o Cêpan Mentor que lhes fora designado. Havia academias de treinamento em todo o planeta, mas a ADL era considerada uma das melhores – os Gardes que iam parar ali supostamente tinham um Legado muito importante em formação.

Algumas das crianças que corriam pelos salões da ADL estavam apenas começando a manifestar seus dons, enquanto outras estavam desenvolvendo o segundo ou terceiro Legado. Mas quase todas viviam animadas, tomadas pela empolgação de controlarem seus poderes, além de morarem longe de casa pela primeira vez. Elas tinham o futuro inteiro pela frente.

Basicamente, a única coisa animadora que aconteceu durante toda a primeira semana foi que um dos Gardes mais jovens, um garoto de cabelo escuro e olhar travesso chamado Samil, quase destruiu a escola inteira. Na verdade, foi até meio divertido – acho que Samil estava exibindo seu Legado pirocinético em desenvolvimento a uns garotos mais velhos, em uma sala vazia, quando as coisas começaram a fugir do controle. Em pouco tempo, o fogo havia se alastrado violentamente. Os corredores da escola se encheram de fumaça, as sirenes soaram e os Cêpans correram para evacuar os estudantes e os funcionários, enquanto os Gardes mais velhos e experientes foram em direção ao fogo para tentar contê-lo.

O restante de nós ficou reunido no gramado, esperando que tudo fosse resolvido. Pelo menos por alguns minutos, enquanto uma espiral de fumaça negra subia do prédio, pareceu que minha estada na Academia de Defesa de Lorien seria bem curta.

— Então, se este lugar inteiro queimar, vão me mandar para casa, certo? — perguntei a Rapp.

— Não fique tão decepcionado — respondeu, desdenhoso. Quando viu que não retruquei, ele apenas bufou. — Cara, você acha que isso não acontece o tempo todo? As paredes daqui são à prova de fogo. Na verdade, são à prova de qualquer coisa. Esta escola foi construída para resistir a praticamente tudo. Você devia se preocupar com o que está dentro daquela sala. Como o pobre do garoto que acabou de descobrir que gerar bolas de fogo gigantes talvez não seja tão legal quanto parece.

No mesmo instante, me senti culpado por sequer ter considerado isso. Todos os anos surgiam histórias de jovens Gardes mortos em acidentes assustadores causados por poderes que não eram capazes de controlar ou, em alguns casos, nem sabiam que tinham. Houve a garota com habilidade de manipular a temperatura que acidentalmente se congelou na banheira, e o garoto com poder de voo sônico que excedeu a força da gravidade do planeta e foi sugado pela atmosfera, sem poder respirar. Era obrigação dos Cêpans Mentores prevenir esse tipo de incidentes. Ainda assim, essas coisas aconteciam.

— Desculpe — murmurei para Rapp. — Acho que não pensei direito.

Ele deu de ombros e abrandou a expressão.

— Aham — respondeu. — Eu sei. Sem problema.

Olhei de relance para Vatan, Cêpan do garoto que havia começado o incêndio. Seu rosto estava pálido e angustiado. Eu sabia que, se algo acontecesse sob sua responsabilidade, ele jamais se perdoaria. Porém, alguns minutos depois, uma pequena figura surgiu rastejando em meio à fumaça e às chamas. Era Samil, totalmente ileso. A expressão em seu rosto se dividia igualmente em vergonha, horror e orgulho.

Todos gritaram de alegria e alívio, e, na primeira demonstração genuína de emoção que presenciei desde que cheguei à Academia, Vatan correu pelo campo e envolveu Samil em um forte abraço. A pele do garoto – no fim das contas tão à prova de fogo quanto as paredes da escola – ainda queimava de calor. Vatan não o soltou nem mesmo quando o tecido de sua túnica azul chamuscou.

Eu também fiquei aliviado. Quer dizer, é óbvio que fiquei aliviado. Não queria que ninguém morresse, muito menos um garoto de onze anos. Mas, pelo menos, o fogo havia sido alguma coisa. Depois que acabou, tudo voltou ao normal. E, por ora, minha cota de normalidade já estava preenchida pelo resto da vida.

As noites na ADL não eram muito diferentes dos dias. Pelo menos, eu tinha Rapp para me fazer companhia. É, ele levava tudo muito a sério, mas pelo menos era alguém com quem conversar. E não era tão chato quanto me pareceu a princípio. Ele não fazia ideia de quem era Devektra, mas desde que contei a história de como a havia conhecido, quis saber todos os detalhes. Não só sobre Devektra, mas sobre a Chimæra, como eu tinha conseguido entrar escondido e se eu era mesmo um frequentador assíduo.

Além disso, ele me deixava copiar seu dever de casa, o que era ótimo, porque, embora a maioria fosse fácil, era muita coisa a fazer.

Talvez, se achasse que havia algum propósito em fazer os deveres por conta própria, eu teria me interessado mais. Em casa, eu havia aprendido sozinho a mexer em máquinas e equipamentos eletrônicos com uma finalidade: escapar das aulas e entrar em lugares como a Chimæra. Para ser quem eu quisesse ser. Era um meio de burlar o sistema.

Aquilo ali era o sistema. E um sistema no qual eu não acreditava.

De acordo com a lenda – ou a história, dependendo de quem a contava – os Nove Anciões deram origem à Grande Era Lórica éons atrás, quando descobriram as Pedras da Fênix. O evento antigo teria então despertado os Legados da Garde e evocado as Chimæras de seus esconderijos, transformando Lorien em um lugar de paz e prosperidade, algo sem precedentes no universo inteiro.

Daquele momento em diante, o ecossistema de Lorien se desenvolveu. Onde antes alimentos e recursos eram escassos, passou a haver mais do que o suficiente para todos. O que o planeta em si não oferecia em excesso era facilmente fornecido pelos estranhos, incríveis e infinitos poderes diversificados da Garde. Em outros planetas, esse era o tipo de coisa que as pessoas disputavam com unhas e dentes. Aqui, não. Aqui em Lorien, nós podíamos apenas viver.

Entretanto, os Anciões também lançaram uma profecia: haveria um dia, quando menos esperássemos, uma ameaça viria nos testar – e nos destruir. Não saberíamos quando essa ameaça viria, mas ela viria, e quando acontecesse deveríamos estar preparados.

Era por isso que a ADL existia. Era por isso que eu estava aprendendo a criar e manter sistemas de defesa cada vez mais elaborados contra um inimigo que eu tinha certeza absoluta de que era uma fantasia. Só para o caso de amanhã ser o dia em que todos vamos acordar sob ataque.

Em casa, todos sabiam da história, mas ninguém parecia dar muita importância a ela. A descoberta das Pedras da Fênix era apenas uma lenda, algo que acontecera havia tanto tempo que já nem parecia real. E a antiga profecia dos Anciões… Bem, mesmo que algum dia se concretizasse, sem dúvida parecia que não seria tão em breve. Da boca para fora, muitos lorienos apoiavam o bom trabalho realizado em locais como a ADL, garantindo que Lorien “permanecesse segura por muitas gerações”, mas nem os mais patriotas pareciam levar nada daquilo muito a sério.

Afinal de contas, tudo era perfeito. Por que se preocupar com o que poderia acontecer um dia?

Ali na Academia, a história era totalmente diferente. Todos andavam para lá e para cá como se a profecia estivesse a cinco minutos de se concretizar, como se pudéssemos ser atacados a qualquer instante. Quando disse a Rapp que na verdade não achava tão importante manter a rede – o vasto sistema de defesa que escaneava o espaço aéreo da Capital em busca de potenciais invasores – funcionando em perfeitas condições o tempo inteiro, foi como se o tivesse insultado.

— Alguns de nós realmente se importam com o que é feito por aqui — ele disse. Proferiu as palavras com calma e cuidado, mas sua voz estava trêmula. Percebi que eu o havia abalado seriamente. — Enquanto todos em Lorien vivem suas utopiazinhas, parabenizando uns aos outros pela perfeição deste lugar, pessoas como eu dão o sangue para manter as coisas assim. Sem a rede, seríamos um alvo fácil. Mas todo mundo só ri da nossa cara.

— Calma — eu pedi, surpreso por ele estar tão furioso. — Você está agindo como se eu tivesse acabado de dizer que Pittacus Lore é um idiota ou coisa do tipo.

— É, pode ser — ele respondeu, emburrado. — Você deve pensar isso também, não é?

Eu paro.

— Não — respondi. — Quer dizer, não exatamente.

Na realidade, eu não fazia a menor ideia de como era o famoso Pittacus Lore. Eu nunca o vi – mesmo a estátua de Pittacus na entrada da Academia não era do Pittacus atual, mas de um dos mais antigos, provavelmente de umas centenas de anos antes ou algo assim.

Os Anciões atuais tinham os mesmos nomes dos nove originais que supostamente descobriram as Pedras da Fênix, mas pertenciam a gerações muito distantes dos Anciões da lenda. Os nomes eram passados adiante como títulos, junto com as habilidades específicas dos Anciões, a sucessores escolhidos a dedo para assumir o papel de seus antepassados de zelar por Lorien, proteger nosso meio ambiente e preservar nossas tradições e nosso modo de vida. Eu sabia que eles faziam viagens ocasionais à ADL para consultar os Cêpans Mentores e os instrutores, mas nunca os tinha visto.

Com exceção dessas breves interações com o mundo, os Anciões havia muito tinham se afastado das atividades cotidianas de Lorien. Até o paradeiro exato deles era desconhecido: alguns lorienos diziam que eles viviam no interior das montanhas de Feldsmore, enquanto outros afirmavam que sua moradia era em uma fortaleza gigantesca de vidro nas profundezas do Mar de Terrax. E essas eram apenas algumas das teorias mais plausíveis.

A única coisa que eu sabia era que não parecia que os Anciões faziam muita coisa, e a maioria do pessoal na ADL e dos operadores de defesa de Lorien contavam muitas histórias a respeito de profecias que jamais se tornariam realidade.

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