Capítulo Dez |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

AO RECOBRAR A CONSCIÊNCIA, AVALIEI A SITUAÇÃO.

Escuridão.

Silêncio.

E – lá estava – dor.

Eu me forcei a levantar em meio à escuridão, tateando à minha frente às cegas. Senti-me esmagado, meu próprio sangue molhava as palmas de minhas mãos, a sensação pungente causada pela fumaça atingia meus olhos ainda incapazes de enxergar.

A audição voltou mais depressa do que a visão. Havia um zumbido em meus ouvidos, o extremo oposto da emoção hipnótica e libertadora da canção de Devektra. Era violento, ensurdecedor. Em agonia, apertei a cabeça para repeli-lo, mas a dor não parava de aumentar.

A boate havia sido bombardeada. Então, outros sons emergiram junto ao zumbido agudo. Gemidos. Gritos. Choro.

Virei a cabeça para a esquerda e para a direita, tentando encontrar algum ponto de luz, alguma coisa que me ajudasse a entender o que acabara de acontecer.

Foi quando vi o fogo subindo pela parede da entrada, ainda fraco, porém se alastrando.

Só quando tentei ficar de pé percebi que estava no primeiro andar da boate, não no mezanino. Virei e vi que o balcão inteiro havia sido arrancado de sua estrutura e estilhaçado como porcelana bem no chão da boate.

Não, eu pensei. Não.

Não apenas no chão da boate. Em cima de uma massa de espectadores esmagados. Já estavam todos mortos.

O palco estava intacto, assim como a outra metade da pista de dança, que não fora soterrada pela queda do mezanino. Mas as pessoas ali não foram poupadas. A força da explosão somada aos estilhaços do teto despedaçado matou a maior parte da plateia que não havia sido esmagada. Corpos se amontoavam no chão, enquanto sobreviventes ensanguentados e atordoados lutavam para caminhar em meio ao mar de cadáveres.

Minha perna estava presa, comprimida entre duas pedras. Temi que estivesse quebrada ou pior. Mas eu precisava me levantar.

Devektra, pensei. Tinha que saber se ela estava bem.

Contorci meu corpo sob os escombros, mas ele não ia ceder. Olhei ao redor, procurando algo que pudesse usar para sair dali.

Foi quando vi o sujeito com quem estava conversando apenas alguns minutos antes, o cara que não gostava de Deloon naquela época do ano. Ele estava estirado no chão, e o balcão sob ele era um quebra-cabeças desmontado. Seus olhos estavam arregalados, e o corpo, incrivelmente intacto, exceto pela mandíbula, que havia sido deslocada pelos estilhaços.

Desviei os olhos da cena assustadora e senti uma mão em meu ombro. Era Mirkl, de pé ao meu lado, com um olhar horrorizado e coberto de poeira, mas aparentemente ileso.

— Ajuda?

Em minha confusão, congelei, incapaz de decidir se ele estava oferecendo ou pedindo ajuda.

Mirkl não esperou que eu entendesse. Rastejou até onde eu estava e olhou ao redor, escolhendo qual pedra levantar para me libertar. Seus braços finos pareciam fracos, mas, quando encontrou o bloco que prendia minha perna, ele o puxou como se fosse nada.

Olhei para o meu joelho. Estava ensanguentado e contundido, mas não quebrado. Eu ficaria bem.

Sem saber de onde tirei forças, eu me levantei, primeiro sobre a perna forte e depois com a fraca e formigante, e fui cambaleando sobre o piso irregular de escombros. Virei-me para agradecer a Mirkl. Ele já havia desaparecido em meio às lamúrias, aos gritos e ao silêncio atordoado da massa de sobreviventes.

Olhei na direção da entrada. Não havia mais entrada. As portas e toda a parede da frente da boate agora eram nada mais do que um lancinante inferno cor de laranja. O suor pinicava minha testa.

A saída de emergência. Era a única forma de sair. Ou, pelo menos, seria. A saída de emergência só era acessível pelo andar de cima. Senti toda a esperança evaporar de dentro de mim. Então, vi alguns sobreviventes se amontoando na base da parede abaixo da saída de emergência. Apesar do desabamento do balcão, a estrutura, alguns pedaços de concreto e algumas vigas permaneciam embaixo da saída. Era o suficiente. Ou quase. Os sobreviventes escalavam a parede apressados, agarrando quaisquer pontos de apoio que conseguiam e içando seus corpos para fora da boate em chamas.

Eu estava dividido. Sabia que era preciso correr para salvar minha vida, mas mesmo assim não conseguia. Queria encontrar Devektra.

Ainda tentava tomar minha decisão quando vi suas brilhantes calças vermelhas subindo pela parede em direção à saída. Depois de tudo aquilo, ela não pensou duas vezes antes de aproveitar a primeira oportunidade de se salvar.

Será que nem passou por sua cabeça me procurar?

Agora, nada me prendia àquele lugar. Corri até a multidão na base da parede. Tentei resistir a dar uma última olhada para a boate enfumaçada, ensanguentada e destruída. Não olhe para trás.

Mas eu olhei, e meus olhos bateram direto nele.

Paxton. Estava vivo, mas agachado no chão, desesperado, se balançando para a frente e para trás.

Eu sabia que estava sendo um idiota, mas não me importei: sem pensar duas vezes, abandonei meu lugar no fim da fila e corri para ajudá-lo. À medida que me aproximava, entendi porque ele desistira. A seus pés, esmagada pelo concreto, estava Teev.

Agarrei a mão dele e tentei puxá-lo em direção à saída, mas ele não se moveu. Seu olhar encontrou o meu.

— Ela está presa — ele disse. — Teev. Precisamos soltá-la.

Eu nem precisei olhar para baixo para saber que Teev estava morta. Paxton, no entanto, não percebia isso.

— Eu lamento muito — eu disse. — Mas não temos tempo. Precisamos ir agora.

Lentamente, ele começou a se afastar do corpo da garota por quem um dia eu tivera uma queda, a garota a quem ele amava. Eu o empurrei para a frente por cima dos escombros no mezanino, tentando não pensar nos cadáveres de todos os lorienos mutilados e ensanguentados sob a pedra.

Éramos os últimos diante da parede. Enquanto empurrava Paxton para cima e para fora, avistei o bracelete de Daxin emergindo dos escombros, a alguns metros de distância. Eu devia ter deixado o bracelete cair quando o teto cedeu e o balcão desmoronou. A fumaça estava tomando conta, e as chamas quase alcançavam a saída, mas mesmo assim eu me arrisquei novamente.

Dei um salto para pegá-lo.

Coloquei o bracelete de volta, escalei a parede e me arrastei noite afora.

Na rua, uma mulher ensanguentada em roupas esfarrapadas caminhava, errante, por entre os sobreviventes.

— Devektra tentou nos matar! — ela gritava. — Foi Devektra quem fez isso!

Ela estava claramente histérica, e a maioria das pessoas reunidas à sua volta estava chocada demais com a explosão para lhe dar muita atenção. Alguns, no entanto, pareciam assentir com a cabeça.

Só naquele momento o choque me atingiu. Havia algo na quietude – na normalidade – da rua do lado de fora da boate que me fez compreender de verdade o horror do qual havia acabado de escapar.

O bracelete vibrava novamente em meu pulso novamente. ALERTA ALERTA ALERTA.

Devektra não estava entre os sobreviventes. Ela não hesitara por um segundo sequer, nem havia parado para ajudar ninguém. Ela balançara o traseiro vermelho-brilhante para fora dali.

Ainda assim, apesar da gritaria da mulher e dos murmúrios silenciosos da multidão, eu sabia que Devektra não havia sido responsável pela explosão. Ela inclusive tentara me alertar sobre isso, mais ou menos. À sua maneira, ela tentara avisar a todos nós. Com aquela canção. Ela só não sabia disso. Acho que não. Não fora ela. Eles estavam certos o tempo todo, pensei.

Tudo o que eu havia aprendido na ADL. A rede. A Profecia. Nosso dever sagrado de proteger nosso planeta perfeito. Tudo era verdade. No fim das contas, havia alguma força disposta e capaz de destruir todo o nosso planeta. Aquele foi o primeiro golpe.

Um veículo Muni estava estacionado em fila dupla do lado de fora da boate, e seu motorista corria para socorrer as vítimas. Eu subi na lateral do caminhão para ter uma visão mais ampla da cidade.

Era como eu temia.

A cada ponto do horizonte que eu olhava, avistava mais um marco simbólico destruído. A Arena Norte. Minha antiga escola. Tudo estava pegando fogo.

Eu me virei para o outro lado. Não havia fumaça, mas os Pináculos de Elkin, a maior estrutura de Lorien e casa de quase um terço da população da cidade, também estavam destruídos, deixando um doloroso vazio no horizonte. Sem nada à frente, vi a coluna de luz branca pulsando perversamente no horizonte.

Aquilo não era “Arauto” nenhum.

Em uma epifania, enxerguei tudo claramente. Se ao menos eu não estivesse tão convencido de que todos na ADL eram idiotas egocêntricos, teria percebido tudo muito antes. Era óbvio naquele momento: a coluna de luz era a responsável pelo colapso na rede. Quem quer que estivesse nos atacando provavelmente sabia da falha na rede e enviara aquela luz para destruir nossa única forma mecânica de proteção. Estivera esgotando nossas defesas o tempo todo.

Apoiei a cabeça nas mãos, o coração retumbando no peito. Os invasores haviam enviado mísseis através das falhas na rede, mirando estruturas grandes como a Chimæra e os Pináculos. Eu acabara de substituir a fiação daquele setor alguns dias antes, mas as áreas de segurança eram interdependentes, e eu sabia que havia falhas por toda a cidade. Estávamos desprotegidos.

Era a noite mais clara que eu vira nos últimos tempos. Não havia nenhuma nuvem. Apenas fumaça, chamas e a luz azul-brilhante do Quarto Crescente. Eu não podia mais aguentar. Pulei do veículo e corri até o Ovo, que encontrei estacionado no local exato onde eu o havia deixado. Por mais incrível que fosse, estava intacto.

Precisava retornar à Academia – ou ao que quer que houvesse sobrado dela. Precisava explicar minha teoria a quem quisesse escutá-la. Com certeza o conselho e os outros membros da Academia haviam sido informados dos ataques à cidade, e Daxin devia estar acordado, imaginando onde estaria seu bracelete de identificação.

Quando abri a porta do Ovo, ouvi uma voz.

— Sandor.

Eu me virei. Vi Devektra e Mirkl parados em meio às sombras. Nunca tinha visto Devektra tão perdida, nem mesmo durante seu pequeno ataque de pânico antes do show. Toda a raiva e o sentimento de traição que senti por ela alguns minutos antes desapareceram no instante em que caímos um nos braços do outro.

Depois de um momento, ela me afastou e sacudiu a cabeça com tristeza.

— Eu só vim me despedir. Sei que não nos veremos mais. Seja lá o que isso for, Sandor, é ruim. É a coisa sobre a qual eles nos alertaram. Vou tentar encontrar alguns amigos Gardes, e faremos tudo o que for possível para impedir isso.

Mirkl ficou parado ali o tempo todo, mas olhava para a frente com uma expressão triste. Qualquer força que ele tinha dentro de si parecia ter se esvaído.

— Deixe-me ir junto — eu pedi. — Posso ajudar.

Devektra balançou a cabeça.

— Não. Temos que fazer isso sozinhos. — Ela olhou para o bracelete em meu braço. — Há pessoas que precisam de você agora mais do que eu.

Ela tinha razão, mas eu não estava pronto. Ainda não. Lágrimas rolavam dos meus olhos. Tentei lutar contra elas. Não havia tempo para chorar.

— Por que você me deixou lá? — Eu sabia a resposta. Mas não importava. Precisava perguntar.

Devektra pôs o dedo em meus lábios, como se dissesse preste bastante atenção.

— Fugi porque tive medo, Sandor — ela disse. Pelo menos, acho que ela disse. — Nunca fomos perfeitos. A perfeição não existe. Mas não é tarde demais para nós. Ainda podemos ser bons.

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