Capítulo Dezesseis |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

— AI. — MAL ACORDEI E JÁ ESTAVA COM DOR.

O garoto acabara de pisar com força em minhas pernas e agora pulava em cima do resto de meu corpo, esmagando meu estômago e minhas costelas.

— Acorda — ele pediu, ainda pulando dolorosamente em mim. Era um jeito infernal de acordar de manhã, mas eu estava começando a me acostumar. — Acorda — o garoto, a quem todos havíamos começado a chamar de “Nove”, repetiu.

Ele tinha os olhos brilhantes, era brincalhão e tão cheio de energia, que cinco minutos em sua companhia eram o suficiente para me fazer rezar pela hora de dormir.

Nove e os outros pequenos Gardes haviam se recuperado rapidamente dos horrores daquela noite terrível, havia quase um mês, quando Lorien sucumbiu aos mogadorianos. Os outros Cêpans Mentores mal acreditaram na capacidade de superação das crianças. Nós invejamos isso. Nenhum de nós jamais esqueceria tudo o que aconteceu.

— Estou indo — eu disse, balançando as pernas por cima da cama e puxando minha camiseta Kalvaka do cabide na parede. Todos os outros Cêpans Mentores andavam enfiados em suas túnicas da ADL, mas eu tinha somente as roupas convencionais que usei na última noite em Lorien.

— Você é muito lerdo — Nove reclama puxando meu braço enquanto eu tentava terminar de me vestir.

— Desculpe, amigão — eu retruquei. — Fui dormir tarde ontem.

— E qual a novidade?

Eu me virei e vi Brandon, sorrindo, no canto da divisória que separava meu dormitório do resto da nave. Brandon estava sempre pegando no meu pé porque eu acordava tarde e sempre era o último Cêpan a dormir, socializando até o amanhecer na cantina da nave. Se ele já tivesse ido dormir, Kentra ou um dos outros sempre ficavam por lá.

— Hoje é o primeiro dia do treinamento de pré-combate — ele continuou. — Eu levo o Nove, não tem problema.

— Pré-combate? Já?

Tive muita dificuldade para entender que já começariam a preparar alguns dos Gardes para se tornarem guerreiros. Brandon e Kentra haviam explicado que eram apenas treinos e exercícios físicos por enquanto, mas mesmo assim… Os garotos eram tão pequenos.

Eu vi Quatro, o Garde de Brandon, esticando a cabeça por detrás das costas de seu Cêpan. Tímido, ele estendeu sua mão para Nove, convidando-o para irem juntos até o local de pré-combate.

Ao ver a cena, esperei que Nove pegasse a mão de Quatro. Seria um gesto amigável.

— Prucawbat! Grrr! — grunhiu Nove e pulou de volta na cama, ou inconsciente do gesto de Quatro ou agitado demais para percebê-lo.

Eu sorri, exausto e ao mesmo tempo orgulhoso da hiperatividade do meu Garde. Tirei Nove da cama e o coloquei no chão.

— Você vai com Brandon e Quatro, está bem? Vamos nos encontrar mais tarde na Sessão Individual.

Sessões Individuais eram as sessões de treinamento e desenvolvimento entre os Cêpans Mentores e seus Gardes. Fora decidido que minhas Sessões Individuais com Nove seriam supervisionados por outro Cêpan Mentor, devido a minha inexperiência e falta de treino. Mas mesmo com Brandon ou Katar baforando em meu pescoço, a Sessão Individual era a melhor hora do dia: apenas o garoto e eu.

A nave enorme era um espaço amplo sem paredes, mas, pelo bem de nossa privacidade e sanidade, divisórias holográficas programáveis separavam as áreas em “cômodos”.

A cantina era um desses espaços, localizada perto da cabine da nave. Quando eu finalmente cheguei lá, estava quase vazia, e as opções de comida eram poucas: um pacote de frutas secas e desidratadas ou um prato de grãos moles e mornos.

Ah, eu pensei. Os riscos de se dormir demais.

Escolhi as frutas e fui me sentar ao lado de Hessu, a única Cêpan presente.

Hessu era a mais velha dos Cêpans, e muito tímida. Eu nunca sabia o que dizer a ela, então apenas acenei com a cabeça e fui tomar meu café da manhã em silêncio.

Como costumava acontecer quando eu tinha um tempo sozinho, meus pensamentos flutuaram até os eventos em Lorien, até as duas coisas que havia testemunhado – a destruição da Capital e as dolorosas lágrimas turvas no rosto do avô de Nove – e as que eu havia apenas imaginado: o chalé de meus pais em Deloon sendo destruído por mísseis mogadorianos, e Devektra, enfim sucumbindo às tropas terrestres mogadorianas enquanto defendia com valentia sua amada cidade.

Também pensei na decolagem da nave, no que observei pela janela enquanto a flutuávamos sobre a pista. O Ancião Loridas, que insistira em não subir a bordo, e que, conforme passávamos pela atmosfera do planeta, era reduzido a um pontinho no solo, junto aos soldados da Força de Defesa de Lorien e aos kabarakianos ainda lá embaixo, lutando para conter a horda de mogadorianos que avançava.

Os primeiros dias no espaço haviam sido os piores. Nós, Cêpans Mentores, nos reuníamos na cantina, com nossos protegidos impacientes e traumatizados no colo, à espera de informações do piloto sobre o destino de Lorien. Brandon explicara que a grande maioria dos membros do conselho, da Academia e da FDL havia sido morta na primeira onda de ataques, mas havia quem estivesse determinado a sobreviver, heróis como Devektra, que lutariam contra as forças invasoras por piores que fossem as chances de vitória. Fora decidido por votação que, assim que a nave alcançasse uma distância relativamente segura, iríamos parar, aguardar e observar. Se houvesse qualquer sinal de que Lorien não tinha sucumbido totalmente, de que algum movimento de resistência se formara e de que havia uma chance de sobrevivência, por menor que fosse, retornaríamos e ajudaríamos da melhor forma possível.

Contudo, após muitos dias e noites em claro, o piloto emergiu da frente da nave para a cantina e sacudiu a cabeça.

— Pelo que a nave pôde escanear — ele disse, lutando contra as lágrimas — não há nada. Não sobrou nada.

De todos os horrores que eu havia sofrido, esse era o pior, o mais devastador. Pouco a pouco, as coisas foram melhorando. E, por mais sombrios que fossem meus pensamentos, era difícil ficar triste com nove crianças impulsivas e agitadas nos cercando todos os instantes do dia.

— Ela está doente — Hessu anunciou. Eu quase precisei olhar duas vezes: Hessu nunca falava com ninguém que não tivesse falado com ela primeiro. — Levou um tempo para que eu entendesse que ela devia estar falando de sua Garde, a garota a quem chamávamos de Um. — Eu acordei no meio da noite com um pressentimento ruim, então desci até o alojamento das crianças para conferir e, quando toquei a testa dela, tive a certeza de que estava quente. Uma febre alta. — A aversão de Hessu ao contato visual fazia parte de sua personalidade, mas a forma intensa com que ela evitava meu olhar me fez temer o pior.

— Onde ela está? — eu perguntei. — Ela está bem?

— Ela está no Autodoc.

Como ninguém a bordo possuía qualquer conhecimento médico, a nave havia sido equipada com uma pequena área climatizada chamada Autodoc. Ela monitorava os sinais vitais do paciente e dosava os medicamentos necessários através do sistema de ventilação.

— A máquina disse que ela vai melhorar.

— Que bom, então — eu disse, aliviado. — Isso é muito bom.

Hessu apenas deu de ombros. Seus lábios estavam apertados, parecendo desgostosa, como se ela tivesse acabado de provar algo azedo.

— Ela vai morrer — ela disse.

Eu congelei em meu assento, sem palavras. Senti como se as palavras de Hessu tivessem sugado todo o oxigênio do ambiente.

— Ela vai morrer — ela repetiu. — Tenho certeza disso.

— Hessu, tenho certeza de que ela vai ficar boa…

Ela se virou para mim, um olhar de fúria e desprezo queimando-lhe o rosto.

— Eu não quero dizer agora, seu idiota! — Ela deu uma risada amarga. — Você não percebe que vamos todos morrer?

Meu sangue congelou. Aonde essa mulher queria chegar?

— Certo. Certo — ela disse. — Você ainda não recebeu todas as informações. Como poderia saber? Esta é uma missão suicida. Estamos indo a um planeta distante para nos esconder dos mogadorianos, para fugir deles, um esforço patético para sobreviver que podemos fazer até que eles venham nos caçar e nos matar. É inútil. Não sei por que estamos sequer nos dando ao trabalho.

Suas palavras adentraram minha cabeça como um veneno, mas tentei prestar atenção ao problema principal: sua histeria.

— Você precisa se acalmar — eu disse.

— É fácil para você falar. Você é o último. Você e o seu garoto foram abençoados por último por pura sorte, porque estavam atrasados! — A risada amarga voltou. — Enquanto minha menina e eu… fomos as primeiras. As primeiras abençoadas, as primeiras a morrer.

O riso deu lugar às lágrimas, e Hessu afundou o rosto nas mãos. Lutando contra meu próprio horror, eu a abracei.

Ficamos assim por algum tempo. Eu a ninei em meus braços, enquanto a terrível verdade sobre nossa situação inundava meu coração.

Mais tarde, caminhei pelo corredor virtual em direção ao galpão vazio onde aconteciam minhas Sessões Individuais com Nove. Eu me senti um idiota. Por me permitir ser otimista em relação aos planos dos Anciões para todos nós, por acreditar que a jornada à frente poderia ser mais iluminada do que a que deixamos para trás. Ouvir aquilo de Hessu apenas tornaria mais triste a chegada a nosso destino.

E me senti um idiota por não investigar com mais afinco a natureza do ritual que Loridas havia realizado em Nove. Como um tolo, presumira que aquilo fosse apenas alguma bênção sem sentido. Porém, segundo Hessu, era muito mais do que isso. Era um feitiço de proteção que garantia imunidade total a todas as crianças. Todas, exceto Um.

A bênção dela era somente um elo para as outras. Ela não era imune. Quando ela morresse, Dois estaria vulnerável. Quando Dois morresse, Três estaria vulnerável. E assim por diante, em uma cadeia que conectava todos os preciosos jovens Gardes.

Nesses termos, não parecia mais bênção alguma. Mas sim uma maldição. E eu ficava enjoado só de pensar nisso.

Parei do lado de fora do galpão e olhei pela janela da nave. Tudo o que pude ver foram estrelas. Ainda tínhamos muitas galáxias a percorrer até chegarmos a nosso destino. Estávamos indo para a Terra. Um planeta longe da perfeição. Não era nada parecido com o que um dia foi Lorien.

Entretanto, mesmo com todas as terríveis histórias que ouvira sobre as desgraças da Terra, sobre a guerra, a fome e a poluição, eu estava ansioso para chegar, pelo menos um pouco. Ainda me lembrava da transmissão a que assisti na noite do Quarto Crescente, antes da atitude fatídica de pegar o bracelete de Daxin e escapar da Academia, e sabia que a Terra não podia ser tão ruim assim.

Adentrei o galpão e encontrei Nove me esperando no chão, de costas para a porta virtual. Adel, Cêpan Mentora de Sete, estava sentada em uma cadeira no canto. Ela seria nossa supervisora no treino de hoje.

— Oi, Adel — eu cumprimentei com um sorriso e um pequeno aceno. Ela acenou de volta.

Ao ouvir minha voz, Nove deu um pulo, girou e correu em minha direção, agarrando meus joelhos. Com os olhinhos brilhantes, olhou para mim.

— Sandor? — Nove pronunciou meu nome de forma arrastada, sacudindo a cabeça para a frente e para trás. — Nós vamos brincar hoje?

Eu olhei para ele e sorri.

— Vamos, amigão — eu disse. — Nós vamos brincar hoje.

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