Capítulo Doze |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

SENTI MEU CORPO SER ERGUIDO DO CHÃO E CARREGADO ATÉ UM VEÍCULO. FUI jogado para dentro dele e aterrissei com uma pancada nas costas. Ouvi o som de uma porta fechando e senti o transporte dar uma guinada enquanto, ganhando velocidade, continuava sua rota no piloto automático. Fui arremessado com força no banco.




As luzes acenderam, e minha visão embaçada foi aos poucos voltando a focalizar o mundo a meu redor. Tentei decifrar a figura de meu captor. Brandon olhava de volta para mim.

— Você? — perguntei, chocado em não ver um rosto alienígena medonho.

Impressionado em ver Brandon vivo. Brandon caiu de joelhos.

— Não — ele disse. — Não é possível.

Ele parecia tão desolado e perdido quanto eu. Então, ele se inclinou em minha direção e puxou meu braço para a frente. Examinou o bracelete de identificação, incrédulo, e em seguida agarrou meus ombros e começou a me sacudir com tanta força, que eu pensei que iria vomitar.

— Como você pegou isso?! Como você pegou isso?!

Eu tentei responder, mas ele não me deixava. Ele não parava de me sacudir. Quando não aguentei mais, finalmente abaixei a cabeça e vomitei no aço ondulado do chão do veículo inteiro.

Brandon rastejou para trás, para longe do meu vômito. Quando parei, vi que ele me olhava como se pedisse desculpas.

— Sinto muito — murmurou.

— Não foi culpa sua — eu respondi. — Não acho que foi você. A fumaça da explosão me deixou enjoado. E me fez desmaiar, eu acho.

Passei para o outro lado do veículo ainda em movimento, me sentei e expliquei a ele como cheguei até ali. Contei como roubei o bracelete de identificação de Daxin para entrar na Chimæra e como corri de volta até o campus e encontrei o terreno parecendo coberto de piche.

Ao terminar, olhei envergonhado para Brandon. Ele ficou quieto por um minuto, com uma expressão indecifrável. Enfim, falou:

— Eu jamais teria voltado à ADL se soubesse que só havia você. Era um risco inútil.

Ai.

— Voltei por Daxin — ele prosseguiu. — Passei horas exposto na cidade tentando encontrar Daxin, e tudo o que encontro é você?

Senti minhas vísceras remexerem de vergonha.

— Ele deveria ter saído. Se estivesse com o bracelete de identificação, poderia ter sobrevivido — Brandon disse, sua ira crescendo. — Quando o primeiro míssil mogadoriano atingiu a rede, foi enviado um sinal de alerta a nós, os nove Cêpans Mentores da Academia. Era para evacuarmos imediatamente qualquer lugar onde estivéssemos e ir ao encontro de nosso Garde designado utilizando os braceletes de localização, resgatá-lo e levá-lo à base secreta. Oito de nós conseguimos, mas Daxin deve ter continuado dormindo durante o ataque.

Era o plano de evacuação que Daxin havia mencionado de forma tão misteriosa. Eu presumira que fosse só uma paranoia de defesa de Lorien, mas ele sabia o que estava por vir.

— Sinto muito — eu disse com a voz falhando.

As palavras soaram tão patéticas, tão débeis frente a toda a destruição e morte que eu havia causado. Tudo isso para que eu pudesse ir a um show e ficar com Devektra. Minha cidade estava em ruínas, e Daxin estava morto. Ele jamais completaria a missão para a qual passara a vida inteira se preparando.

— O Ancião Pittacus elaborou o protocolo de evacuação há muitos anos, mas nós, os Cêpans Mentores, recebíamos pouquíssimas informações para além do que permitia nossa matrícula. Há algumas semanas, os Anciões partiram em uma missão diplomática secreta, da qual ainda não retornaram. Eles ajustaram o protocolo para que fosse ativado, por medida de segurança, caso o conselho perdesse contato com eles durante o período de ausência deles. — Brandon colocou as mãos na cabeça. — Eles estavam preocupados. Pelo pouco que pude entender, uma raça alienígena chamada mogadoriana está chegando. Já chegou. A Profecia dos Anciões se concretizou. Nós sabíamos da existência dos mogadorianos… e já tínhamos feito negócios com eles havia muitos anos… mas jamais imaginamos que eles se mostrariam hostis.

Eu assentia enquanto ele falava, tentando absorver o máximo de informações possível.

— Lorien, como conhecemos, já não existe mais — ele prosseguiu. — E nós — acrescentou, pontuando a frase com uma risada amarga — já estragamos a evacuação. Nove Cêpans Mentores, nove jovens Gardes. Assim como existem nove Anciões. O número deve ser importante, deve ter sido assim por alguma razão. Com Daxin morto…

Sua voz falhou. Ele se virou para o console na frente do transporte e suspirou.

— Estamos quase na pista de decolagem — ele informou. — Vamos ter que nos virar com oito.

O veículo parou, e Brandon pulou para fora.

Eu o segui. Havíamos parado a quase cinquenta metros de uma pequena pista de decolagem, bem no interior dos Territórios Longínquos. Uma aeronave de porte médio estava estacionada à distância. Percebi algumas pessoas se reunindo perto da aeronave. Sem direcionar uma palavra para mim, Brandon se afastou do veículo e foi andando em direção a elas.

— Espere — chamei.

Ele se virou com um olhar impaciente em seu rosto.

— O garoto — eu disse. — O que vai ser do garoto?

Eu já carregava alguma, talvez toda, responsabilidade pela morte de Daxin. Mas o garoto havia sido marcado para sobreviver e ainda estava por lá. Até onde eu sabia, o Kabarak de Malka ainda não havia sido atingido.

— O Cêpan Mentor dele está morto — Brandon respondeu. — E, mesmo que não estivesse, levaria duas horas para ir até ele e voltar. Precisamos sair do planeta o quanto antes. É um risco muito grande, um risco que nenhum de nós, com nossos próprios Gardes para proteger, pode se dar ao luxo de correr.

Então o garoto estava condenado?

— Eu não posso viver com isso — eu disse.

— Você não vai precisar — Brandon respondeu. — Pelo menos não por muito tempo.

O medo dominou meu coração, e de repente percebi: não havia lugar para mim na aeronave de evacuação. Durante a próxima onda de ataque, eu sucumbiria com o restante do planeta.

— Então eu, o garoto e todo mundo neste planeta… estamos ferrados, é isso? — Eu sabia que soava patético, mas não consegui me controlar. — Seremos abandonados à morte quando a invasão começar?

— Sim — Brandon respondeu, sem sequer hesitar. — Não se trata mais de salvar vidas individuais, Sandor. Trata-se de salvar uma raça inteira.

Então, seria assim.

— Sinto muito, Sandor — Brandon continuou, abrandando um pouco o tom. — Não tenho motivos para acreditar que os mogadorianos deixarão sequer uma única alma loriena viva quando chegarem, mas, pelo seu bem, espero…

Brandon se calou, incapaz de concluir a frase.

Não era necessário. Eu entendi perfeitamente. A morte era melhor do que a alternativa.

Não havia mais nada a ser dito.

— Então está certo — eu disse, com um sarcasmo deprimente. Dei a Brandon um breve aceno de adeus. — A gente se vê por aí!

Estava sozinho mais uma vez.

Caí de joelhos sobre a terra, aos pés do veículo de Brandon.

A única iluminação vinha das luzes no interior. Brandon não se dera ao trabalho de fechar a porta ao sair. Talvez não fizesse sentido com todo o planeta à beira da destruição.

Girei o bracelete de identificação de Daxin em meu braço. Era incrível quantos problemas esse pequeno dispositivo havia causado, que trágica e ao mesmo tempo trivial confusão eu havia feito com ele.

Com nojo de mim mesmo e de minha própria situação, arranquei o bracelete do braço e o ergui no alto da cabeça, pronto para arremessá-lo à escuridão.

Pensando em Devektra, eu hesitei. Perguntei-me onde ela estaria, se havia encontrado algum outro Garde que pudesse ajudá-la. Perguntei-me se ela ainda estava viva, sabendo que, ainda que estivesse, sua chance de sobreviver, mesmo com os Legados, seria reduzida a zero.

De verdade, a morte era provavelmente a melhor coisa que poderia lhe acontecer. Ela não se importaria. Naquele ponto, éramos muito parecidos. Ela não acreditava em perfeição. Essa era sua força. E eu decidi que também seria a minha. Se a morte era inevitável, eu morreria fazendo o maior estardalhaço que pudesse.

“Nove jovens Gardes”, Brandon dissera. “Deve ter sido assim por alguma razão.”

Sim, eu pensei, olhando para o bracelete de identificação que ainda agarrava com toda força em meu punho. Alguma engrenagem começou a girar há muito tempo atrás para me trazer até ali, caído de joelhos nos Territórios Longínquos, o bracelete e o localizador nas mãos.

Tudo tem uma razão de ser. Tinham que ser nove. Nove Cêpans, nove Gardes. Eu havia ferrado muito as coisas. Entretanto, não era tarde demais. Eu ainda podia fazer algo de bom.

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