Capítulo Nove |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

— DELOON NESTA ÉPOCA DO ANO É UMA DESGRAÇA — O SUJEITO COMENTOU. — EU não iria nem por todo o dinheiro do mundo.




— Sem dúvida, cara — eu disse, embora jamais tivesse pisado em Deloon.

Realmente não queria discutir.

Eu fiquei no mezanino acima do palco com Mirkl e o resto da equipe, esperando o show de Devektra começar. Ela estava atrasada, mas a maioria das pessoas no balcão se mostrava bastante animada, e ninguém parecia impaciente. Muito menos eu.

Em vez disso, eu só me sentia estranho. Tonto e eufórico. Não sabia aonde Devektra tinha ido depois de me deixar, mas, mesmo depois de seu aviso – algo terrível está prestes a acontecer – eu não estava preocupado com ela. Minha cabeça ainda estava zumbindo, rodopiando por dentro.

Nosso beijo tinha sido incrível. Mas foi a conexão telepática que compartilhamos que me deixou desnorteado. Falando apenas através de nossas mentes, conseguimos nos comunicar em um nível mais puro – mais real do que qualquer coisa que eu já havia vivenciado. Nenhum beijo se comparava a isso. Enfim, as luzes da boate diminuíram, e enquanto isso um ponto de luz branca surgiu bem no centro do palco, em uma forma oval ofuscante. Cada um dos presentes ficou com o olhar fixo na luz. Todos prenderam a respiração, esperando o que viria em seguida.

Então, ouviu-se um som, um sibilo fraco, frágil e melancólico. Parecia vir de dentro da pequena poça de luz. À medida que o sibilo crescia em volume e intensidade – sem jamais perder a bela fragilidade – o ponto de luz começou a se inclinar e se curvar, como se estivesse prestes a se quebrar.

Onde estava Devektra? Pareceu que ela estava em algum lugar no interior daquele ponto de luz.

A luz continuou a subir do chão do palco, e a voz em seu interior ficou ainda mais intensa. Depois cessou, pairando exatamente no centro da boate, a apenas alguns metros de onde eu estava, na beira do mezanino. Era tão brilhante que os olhos doíam, mas eu não conseguia desviar o olhar.

O volume e a intensidade aumentavam cada vez mais. Alguns espectadores protegiam os ouvidos da perfuração sônica de Devektra. Mas ainda assim ninguém se atreveu a parar de olhar para a esfera de luz.

Então, explodiu.

De repente, havia luz por toda parte. Não restava uma sombra sequer na boate normalmente escura. As pessoas se viraram, atordoadas, olhando umas para as outras com novos olhos. Cada poro em seus rostos estava exposto, iluminado. O som da voz de Devektra também havia se despedaçado em uma cascata de pequenos tilintares, que ressoavam no mesmo volume em todos os cantos da boate.

— Lá está ela — uma voz anunciou, na multidão.

Devektra estava de pé sobre a plateia. Sua plateia. Não no palco, mas no topo do bar próximo à entrada. Os tilintares evaporaram como fumaça. Ela estivera projetando a voz – e moldando-a dentro da esfera de luz – o tempo inteiro. Enquanto isso, ninguém havia notado que ela estava em outro lugar.

Foi incrível. E era só o começo.

Devektra deu um passo à frente, saiu do bar e caminhou pela plateia em direção ao palco. Em circunstâncias normais, a plateia estaria berrando e se acotovelando para correr para a frente e ficar mais perto da artista. Mas todos se afastaram para dar abrir caminho para ela, ainda admirados com o que haviam acabado de presenciar.

Ela começou a cantar. Sem microfone, sem amplificador, sem a ajuda de Legados. Apenas cantava. Ninguém na plateia emitia o menor som. Sua voz era límpida como cristal.

Aquele não era um de seus números de dança de sempre. Era uma canção simples e triste. Eu quase não entendia as palavras, mas sabia que era uma canção sobre amor e perda. Ela subiu no palco sem parar de cantar, e então se voltou para a plateia, os olhos cheios de lágrimas.

Fui arrebatado. Fiquei me perguntando sobre o que ela estaria cantando. Não pude deixar de imaginar que podia ser sobre mim.

Na verdade, não precisava imaginar. Eu sabia. Era sobre mim, mas não era. Ela estava cantando para mim. A tristeza que aquela canção trazia era maior do que um ou outro lorieno: era tão grande quanto o próprio planeta. Era uma canção para Lorien.

Por mais extasiado que eu estivesse, dei um pulo ao sentir algo vibrar em meu pulso. Olhei para baixo, surpreso, me esquecendo de que ainda usava o bracelete de identificação de Daxin. Ela tremia e chiava com insistência. Eu o silenciei e me virei de volta para o palco.

Devektra ainda cantava, com os olhos fechados.

O bracelete vibrou mais uma vez.

Eu o tirei do pulso para examiná-lo, para descobrir por que tremia com tamanha urgência. Quando coloquei o bracelete nas mãos, a vibração chegava aos ossos dos dedos. Verifiquei a interface digital; a pequena tela retangular piscava com apenas uma palavra: “Alerta”.

O pânico começou a crescer em meu peito. Talvez Daxin tivesse acordado, dado pela falta do bracelete de identificação e disparado algum tipo de alarme. Talvez eu tivesse sido pego.

Não. De alguma forma, eu sabia que o alerta sinalizava algo muito pior do que isso. Pensei no painel de controle do lado de fora da boate algumas semanas antes e no estado deplorável da rede. Pensei em Daxin no Ovo, agindo como se algo estivesse gravemente errado. Pensei na inexplicável coluna de luz. E pensei na Profecia dos Anciões que passei a vida inteira ignorando.

Um dia, uma grande ameaça surgirá…

E pensei em Devektra: “Algo terrível está prestes a acontecer.” Meus joelhos vacilaram. Olhei para cima e a ouvi terminar sua bela canção.

Devektra fechou a boca. A música acabou. A plateia segurou os aplausos, com medo de quebrar o encanto.

Então, o teto veio abaixo.

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