Capítulo Oito |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

À MEDIDA QUE O QUARTO CRESCENTE IA SE APROXIMANDO, EU ESTAVA QUASE começando a gostar da Academia. Ainda não era o meu ideal de lar, mas pelo menos eu estava me adaptando. Depois que parei de bancar o idiota nas aulas de engenharia, elas começaram a ficar divertidas. E, embora não soubesse quando isso havia acontecido, comecei a notar que Rapp e eu éramos, tipo, amigos.




Eu ainda odiava as túnicas, e ainda odiava a forma como todos se levavam a sério por lá. Mas agora eu compreendia. Era preciso acreditar em alguma coisa.

Ainda me sentia meio preso, mas já não parecia tão interminável. Porque agora finalmente tinha uma motivação: o show de Devektra na Chimæra. Eu ia dispensar a túnica abominável, sair às escondidas do campus e entrar às escondidas na boate.

Sim, eu sabia que se fosse pego nenhuma de minhas habilidades técnicas nem toda a humilhação do mundo me poupariam de um destino ainda pior do que o Kabarak. E também sabia que, para começar, Devektra sequer tinha me convidado de verdade.

Nada disso importava. Em primeiro lugar, eu não seria pego. Em segundo, não importava se Devektra tinha ou não sido totalmente sincera. Ela havia me convidado sabendo que eu não tinha a menor chance de comparecer. Imaginei que se eu conseguisse o impossível, ela ficaria impressionada.

Era uma grande missão, mas eu estava preparado. Planejá-la foi minha principal fonte de diversão desde que retornei da viagem com Daxin. Eu até tirei da cabeça a angustiante sensação de que deixara passar alguma coisa – de que algo não estava indo muito bem.

A primeira coisa que fiz foi examinar o esquema de segurança noturna da Academia. Isso não foi tão difícil, pois acontece que não havia nenhum sistema. Não era permitido que os estudantes deixassem a área depois que escurecia, mas todos ali eram tão entediantes e corretos que ninguém se dava o trabalho de fiscalizar. Não havia vigias, nem câmeras, nem sensores, nem nada. Eles não deixavam isso exatamente claro, mas todo o sistema era baseado na confiança.

A parte mais complicada de meu plano seria Daxin. Eu o andara espionando um pouco e acabei descobrindo que ele ocupava um quarto individual no final do meu corredor e tinha o hábito de ir para a cama cedo. Por um instante me preocupei em saber se Daxin, na qualidade de Cêpan Mentor ativo, teria o privilégio de poder trancar a porta do quarto. Mas, na noite anterior ao Quarto Crescente, escapuli de meu quarto à meia-noite, me esgueirei pelo corredor e, em silêncio, tentei girar a maçaneta. A porta se abriu sem qualquer resistência.

Depois de tentar escutar cuidadosamente o barulho do ronco de Daxin, rastejei pelo quarto e me aproximei de sua cama. Lá estava: seu bracelete de identificação repousava bem ali perto do travesseiro, e Daxin estava enrolado ao lado dele, desmaiado de sono, alheio à minha presença. Aquilo seria fácil. Na noite seguinte eu entraria furtivamente, surrupiaria o bracelete de identificação, confiscaria o Ovo no hangar de transporte – eu já havia secretamente pré-ajustado a hora e as coordenadas para a decolagem – e partiria rumo à Chimæra para a apresentação de Devektra. Depois, voltaria escondido, devolveria o Ovo ao hangar e recolocaria o bracelete de Daxin perto de seu travesseiro, e ninguém sequer notaria minha ausência. Fuga, tramoia, armação: tudo igualzinho aos bons e velhos tempos.

O sábado do Quarto Crescente já era o melhor dia de todos: metade do tempo de aulas, seguido de um treino rápido no ginásio e um jantar cedinho no refeitório. Um dos professores havia autorizado uma projeção, durante a refeição, da transmissão interceptada por satélite de um espetáculo visual do planeta Terra.

No geral, aquele devia ser uma droga de lugar para viver, mas sem dúvida o pessoal de lá entendia de entretenimento visual. Embora fosse uma transmissão apenas de vídeo, eu já havia assistido a diversas transmissões interceptadas da Terra e não tinha dificuldade em acompanhar a história.

Não era assim tão complicado. Nem um pouco. Um homem bem vestido viajava pelo mundo, conhecia belas mulheres, se disfarçava para recuperar objetos valiosos, perseguia e era perseguido por caras malvados.

Enquanto assistia, eu pensava: Um dia, quero ser como ele.

Então, colocando mais um pedaço da sobremesa na boca e sorrindo para a tela, percebi que eu já era.

Pilotar o Ovo era um sonho.

Apesar do nome bobo, era uma máquina sexy e glamorosa, especialmente atrás do volante – não muito diferente dos veículos do filme terráqueo que eu tinha visto mais cedo naquele dia. Eu o havia programado para que a viagem começasse ao meu comando, mas, depois de chegar ao hangar e pular para dentro do veículo, me ocorreu que isso criaria um histórico de rota que poderia me incriminar no futuro; portanto, assim que liguei o motor, apaguei as coordenadas e iniciei manualmente a viagem à Capital. Voando para fora do hangar e passando por Kabarak de Alwon, agradeci por ter tomado aquela decisão: pilotar o Ovo era muito mais divertido do que ficar reclinado e deixar o veículo fazer todo o trabalho sozinho.

Enquanto o campus da ADL estava quieto e tranquilo àquela hora – como a qualquer outra hora, na realidade – o Kabarak estava a todo o vapor para as festividades do Quarto Crescente, quando passei por ele. As Chimæras haviam sido libertadas de suas jaulas e brincavam, soltas, e os kabarakianos se reuniam ao redor de fogueiras na escuridão, rindo, dançando, soltando fogos de artifício e balançando estrelinhas luminosas. Eu sabia que lá embaixo, de Alwon a Tarakas, de Deloon aos Territórios Longínquos, as pessoas celebrariam até o amanhecer.

No entanto, as paisagens e o barulho dos festejos diminuíram quando cruzei a fronteira da cidade, onde o feriado do Quarto Crescente era comemorado com menos entusiasmo.

Com uma das mãos no volante, tirei a túnica e a joguei no banco do carona, revelando a camiseta Kalvaka contrabandeada que eu usava por baixo. Eu ainda vestia o que Devektra chamara de calças de pijama, mas sem a túnica não eram assim tão horrendas. Em meu pulso, o volume do bracelete de identificação de Daxin fazia um contraste chamativo com o restante de minha indumentária.

No geral, eu estava bem bonito. Não que meu visual importasse tanto assim. O principal era que eu havia conseguido sair.

Minha fuga ocorreu de forma tão tranquila, que quase me senti culpado.

Passei a perna em tanta gente na ADL, e ninguém teve qualquer motivo para suspeitar que minha mudança de atitude era em grande parte devido ao planejamento e à execução de uma grande trapaça. Mas antes que eu pudesse sucumbir à culpa ou ao arrependimento, fui distraído pelos Pináculos de Elkin no horizonte, iluminados pela misteriosa coluna branca que surgia por trás deles. Dessa vez, não lhes dei a menor atenção. Estava chegando.

Na Chimæra, o bracelete de identificação funcionou perfeitamente. Ninguém sequer me olhou torto quando entrei. Eu quase me senti ofendido. Será que haviam se esquecido tão rápido de mim?

Talvez eles só não me reconhecessem mais. Eu me sentia mais confiante do que nunca, uma pessoa totalmente diferente daquela que, ao primeiro sinal de problemas, saía empurrando a multidão como um garotinho assustado, apenas algumas semanas antes. Não havia mesmo passado muito tempo, mas eu me sentia muito mais maduro desde então.

A boate estava cheia naquela noite, com quase o dobro de pessoas que tinha visto da última vez que estive ali, e isso significava muito. A presença de Devektra semanas antes fora uma surpresa, mas aquele show do Quarto Crescente havia sido amplamente divulgado, por isso atraíra um público ainda maior. Eu vi uma em cada cinco pessoas do público usando uma camiseta de Devektra customizada. A Chimæra era de longe a maior boate de Lorien, e tinha atingido sua lotação máxima. Senti uma onda de orgulho. Sabia que Devektra era uma grande estrela e tudo o mais, mas até então não fazia ideia do tamanho de seu sucesso. E eu a conhecia. Quase podia dizer que éramos amigos.

— Ora, ora.

Eu me virei e vi Paxton e Teev segurando ampolas pela metade e olhando para mim com sorrisos largos e bem-humorados.

— Olha só quem não desiste nunca — Teev disse, me cumprimentando com um abraço. — Depois que vimos você ser pego da última vez, achamos que nunca mais o veríamos.

Eu apenas dei de ombros e abri meu sorriso mais evasivo, e, pela primeira vez, eles olharam para mim como se estivessem mesmo um tanto impressionados.

Eu estava prestes a parabenizar a mim mesmo, quando ouvi uma voz familiar.

— Ouvi dizer que você tinha arrumado um jeito de entrar.

Eu me virei e vi Mirkl, o braço direito eternamente irritado de Devektra, parado atrás de mim, segurando uma ampola em cada mão. Ele me olhou de cima a baixo com o olhar previsivelmente impaciente.

— Oi, Mirkl — eu cumprimentei, com o tom mais casual que consegui.

Meu coração esmurrava o peito por saber que, se Mirkl veio falar comigo, eu estava a um passo de ver Devektra de novo. Mas banquei o indiferente, por causa de Teev e Paxton. Queria que eles pensassem que eu não achava nada de mais ter intimidade com um integrante da equipe da artista principal. Dei uma olhada neles e vi que me encaravam, espantados. Missão cumprida.

— Devektra quer ver você — Mirkl informou.

Por mais que tudo estivesse dando certo, eu não esperava que fosse assim tão fácil. Como Devektra poderia sequer saber que eu estava ali?

Mirkl deve ter notado minha expressão de surpresa.

— Telepatia, lembra? Truquezinho bacana. Acho que você sabe onde fica o camarim. Aqui. Leve isto para ela.

Ele empurrou as ampolas em minhas mãos e foi embora.

— Você não vem? — eu perguntei a ele, repentinamente nervoso de adentrar o camarim de Devektra sozinho.

Parecia bom demais para ser verdade. Com Devektra, nunca se sabe onde se está se metendo.

Ele virou a cabeça, olhou por cima do ombro e acenou com a mão, me dispensando.

— Estou de folga. Essas ampolas eram minha última tarefa até a hora do show. — Ele me deu um sorriso irônico. — Ela é toda sua.

Em seguida, desapareceu em meio à multidão.

Devektra encarava seu reflexo no espelho da penteadeira, de costas para a porta. Ela usava calças metalizadas vermelhas coladas ao corpo e um top cintilante feito de um material líquido que eu nunca tinha visto. Uma blusa por cima escorria pelas curvas de seu corpo em cascatas, enquanto ela permanecia de pé, olhando para a frente e massageando suavemente as têmporas com os dedos.

Não reparou em mim.

Porém, sabia que eu estava ali – da última vez que estive naquela sala, precisei voar pela porta com toda a força. Dessa vez, sequer precisei bater. A porta simplesmente se abriu quando me aproximei segurando as ampolas que Mirkl me dera para entregar a ela. De repente, me ocorreu que talvez Devektra tivesse usado sua telecinesia para me “ajudar” a arrombar a porta da última vez, também.

Era irônico que eu me sentisse mais confortável arrombando uma porta e derrubando uma pilha inteira de roupas para entrar do que apenas andando.

Fiquei parado ali, um pouco mais do que constrangido, enquanto Devektra se olhava no espelho e massageava a testa.

— Você trouxe? — ela perguntou sem se virar.

— Aham — respondi.

Caminhei até ela e lhe entreguei uma ampola. Ela pegou, virou de um gole só, estendeu a mão para a segunda e fez a mesma coisa. Ainda não havia se dado o trabalho de olhar para mim.

Quando jogou o segundo frasco vazio no chão, entendi o que ela queria. Tive que segurar uma risada. Pelo menos uma vez na vida, era eu quem sabia o que ela estava pensando, e não o contrário. Ou, pelo menos, sabia o que ela estava sentindo. Não era preciso ser telepata para descobrir.

— Uau. Você está mesmo nervosa — eu disse.

— E daí? — Ela enfim desviou a atenção do espelho e fixou os olhos nos meus. Seu olhar era como aço, mas sob a rigidez eu enxerguei um traço de medo. De vulnerabilidade. — Quem não estaria?

— Você não estava nervosa da última vez — argumentei. — Eu nem sabia que você ficava nervosa. Pensei que não fosse do seu feitio.

— Da última vez foi diferente.

— Por quê?

— Porque foi — ela disse. — Era um público menor. Não era o Quarto Crescente. Era simplesmente diferente. Além do mais, tem alguma coisa hoje. Não sei o que é. Acho que estou com um mau pressentimento.

— É só nervosismo.

— Eu sei. Vai ficar tudo bem.

Então, foi como se eu não estivesse mais lá. Devektra voltou a atenção para si mesma enquanto passava os dedos pelos cabelos, começando a amontoá-los com delicadeza, um cacho de cada vez, no topo da cabeça. Cada mecha cuidadosamente arrumada e presa conseguia ficar perfeitamente no lugar. Ela parecia mais assustada do que nunca.

Eu não sabia o que dizer, então decidi tentar algo diferente. Resolvi não falar. Em voz alta, pelo menos.

Como isso funciona?, pensei. Você consegue escutar tudo o que eu penso? E as pessoas lá fora? Você consegue escutá-las? E o resto do planeta? Você consegue escutar todo mundo?

Os lábios de Devektra não se moveram, mas ela me respondeu mesmo assim com uma voz que escutei dentro de minha cabeça, que era dela e ao mesmo tempo não era.

É como estar afundada até o quadril em um rio de fluxo intenso e tentar pegar um milhão de folhinhas minúsculas que passam flutuando por você. Algumas você pega. A maioria, não.

Você me convidou para vir aqui hoje e exigiu a minha presença no camarim. Mas por que eu?, quis saber. O que eu significo para você? Você é Devektra. Eu sou um ninguém de túnica verde.

Não. Você é como eu. Você é diferente. Nenhum de nós dois se encaixa neste mundo. Soube disso assim que o conheci. Antes de conhecê-lo, eu já sabia. Eu senti você lá fora, no meio daquela multidão, na primeira noite. Todas aquelas pessoas e seus pensamentos passaram zunindo por mim. Exceto os seus. Os seus simplesmente borbulhavam, e eu consegui alcançar e puxar cada um, como se cada medo e esperança que você tivesse fossem destinados a mim. Parecia que você estava cantando.

Mas e hoje? Eu tinha que saber. Por que estou aqui agora?

Eu sabia que você faria eu me sentir menos sozinha. Principalmente hoje. Posso sentir que algo terrível está prestes a acontecer.

Eu olhei em volta. Devektra encarava meu reflexo no espelho. Tinha o olhar mais estranho em seu rosto, ao mesmo tempo tranquilo e surpreso. Algo me dizia que ela nunca havia feito aquilo antes. Nunca usara seu Legado para conversar com alguém em silêncio dessa forma.

Eu soube, então, sem compreender como, que talvez aquela fosse a única chance que eu teria. Inclinei-me, fechei os olhos e a beijei. Devektra tinha lábios macios e um perfume que eu reconhecia, mas não sabia descrever, nem para mim mesmo. Seus lábios tinham um gosto que eu provara em algum sonho, um desses que se esquece assim que se acorda.

Quando abri os olhos, ela não estava mais lá.

 

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