Capítulo Onze |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

PROGRAMEI O OVO PARA ME LEVAR DE VOLTA À ADL NO PILOTO AUTOMÁTICO. NoObanco do motorista, cruzei os braços e fiquei olhando para a frente. Não queria ver a destruição ao passar por minha escola carbonizada ou pelos outros monumentos em ruínas de minha cidade natal.




No entanto, mesmo com a visão obstruída, não pude deixar de notar a fumaça oriunda dos Jardins dos Anciões.

Deve haver centenas de mortos, pensei.

Fechei os olhos. Não queria pensar nisso. Só desejava voltar à ADL para ajudar.

Quando o Ovo passou por Alwon, abri os olhos. As Chimæras ainda brincavam à luz da fogueira, e os kabarakianos celebravam juntos, alegres. Estavam alheios à destruição que ocorrera no lado oeste. Não demoraria muito até que descobrissem.

A primeira coisa que eu precisava fazer era garantir que os oficiais e integrantes do conselho da Academia estavam cientes do ataque à cidade. Eu tinha certeza de que estavam, mas mesmo assim era possível que eu desse alguma informação em primeira mão que fosse importante de alguma maneira.

Confessaria a fuga e contaria a eles sobre minha experiência na hora do ataque. E compartilharia minha teoria de que a coluna de luz era algum tipo de investida com a intenção de desarmar a rede antes do ataque de mísseis que dizimara nossa cidade.

Feito isso, eu localizaria Daxin, pediria desculpas por pegar seu bracelete de identificação e o devolveria a ele. Depois, Rapp. Eu precisava me certificar de que ele estava bem.

Antes de ver, eu senti o cheiro. Um odor de poeira e cobre, forte o bastante para me atingir através os avançados filtros de ar do Ovo.

A primeira coisa que vi, na realidade, foi uma ausência: o prédio da ADL, o hangar e a câmara do conselho atrás dele geralmente eram encobertos por luzes de segurança. Porém, à medida que o Ovo foi se aproximando das coordenadas da Academia, não vi nada além de escuridão.

A Academia havia sido atingida.

Com um ruído, o Ovo aterrissou em meio às trevas. JORNADA COMPLETA dizia o monitor do painel. Atordoado, desci do veículo e adentrei a sinistra escuridão da noite.

Conforme meus olhos foram se ajustando, comecei a perceber pequeninos fragmentos de luz no chão.

Estava tudo acabado. Reduzido a pó. Toda a estrutura havia sido empurrada para dentro do solo por uma arma que não se parecia com nada que eu já houvesse imaginado. O campus inteiro fora esmagado e derretido ao mesmo tempo. Os fragmentos de luz esverdeada que eu estava olhando eram as pontas fumegantes da panqueca negra e tóxica que cobria a superfície de Lorien.

Outras centenas, pensei, cambaleando para a frente e para trás por sobre a crosta negra, procurando, sem sucesso, alguma parte do campus que não estivesse destruída. Meus professores. Os estudantes de tecnologia. Os Cêpans Mentores em treinamento e os residentes. Todas aquelas crianças da Garde.

Orkun. Daxin. Rapp.

Desabei de joelhos sobre a crosta. Era quente e cinzenta, mas surpreendentemente macia. Desta vez, eu me permiti chorar.

Como pude deixar isso acontecer?, pensei.

A fumaça que emanava da crosta – decerto vapores químicos provenientes da bomba misturados ao entulho formado pela destruição da Academia – queimava minha garganta e meus olhos. Eu fiquei parado.

Que eles me matem, pensei.

Eu não tinha plano algum, nenhuma casa para onde retornar. Poderia ir para a casa de meus pais. Deloon, uma cidade menor que ficava do outro lado do planeta, provavelmente estaria a salvo. Mas por quanto tempo? E, mesmo que a cidade permanecesse intocada, a ideia de programar o Ovo para me levar até lá, de passar o resto da vida com meus pais no chalé de dois quartos, em reclusão burguesa, já me deixava doente. As únicas coisas com as quais eu me importei tinham sido destruídas. A pior parte era que eu nunca sequer havia percebido o quanto me importava.

Com a cabeça pressionada nos joelhos, ainda confuso e latejando de dor por conta dos vapores que emanavam, de repente agucei os ouvidos. Escutei algo se aproximar. Um veículo.

Os invasores, pensei. Começou o ataque por terra.

Eu não tinha armas nem meios de me defender. Os inimigos, seja lá quem fossem, provavelmente estavam vindo garantir que não deixaram sobreviventes em seu alvo. Quando me encontrassem, iriam me matar.

Isso aqui havia sido minha casa – não apenas a escola, mas todo o planeta.

Eu havia passado tanto tempo ocupado querendo que este lugar fosse algo que não era, que nem percebi o quanto ele me pertencia. Talvez eu não pudesse fazer nada. Era apenas um Cêpan com a perna machucada, sem nenhum Legado e nem sequer uma arma. Mesmo assim, eu me levantei, me virei para enfrentar quem quer que fosse e me preparei para a luta.

Os passos que se aproximavam de mim eram pesados e determinados, e, à medida que ficavam mais fortes, a melodia da última canção de Devektra me veio à mente. Comecei a cantarolar. Porém, antes que pudesse ver meu inimigo, eu desabei.

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