Capítulo Quatro |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

SEMANAS DEPOIS, AO SAIR DA VAN QUE ME TRANSPORTAVA, ME APROXIMEI COM cautela da entrada principal da Academia de Defesa de Lorien, com minhas malas nas costas. A escola era um cubo cinza sem janelas, encaixado no meio de um trecho gramado, às margens da Capital. Para um lugar de tamanho prestígio, eu esperava algo um pouco mais extravagante. Em vez disso, a única coisa que o distinguia de qualquer outro prédio do governo lórico era uma estátua do Ancião Pittacus.

Perto da entrada, a poucos metros de distância da estátua, alguns jovens Cêpans, em túnicas retas de cor azul e calças pretas folgadas, conversavam em voz baixa com um membro do Conselho de Lorien, que identifiquei de imediato pela túnica cor de bronze. Eles possuíam tão pouco estilo e elegância quanto o próprio edifício. Conforme passei, o conselheiro e os Cêpans me lançaram um olhar indiferente. Acenei para eles e me senti um idiota.

Foi quase um alívio entrar no prédio. O saguão era tão escassamente decorado quanto o exterior do prédio, mas pelo menos era movimentado. Jovens Mentores em treinamento mais ou menos da minha idade se dirigiam em fila às aulas. Havia alguns Cêpans Mentores adultos, e até umas crianças Gardes rindo e correndo umas atrás das outras em seus conjuntinhos azuis.

— Kloutus! — um Mentor gritou.

Com um olhar encabulado, um dos jovens Gardes reduziu a velocidade.

Reconheci que o Mentor era Brandon e fui em sua direção. Ele havia sido legal comigo quando me recrutou na rua, e um rosto familiar de repente era muito bem-vindo.

No entanto, se eu esperava ter um novo amigo, estava enganado. Brandon me deu uma olhada de cima a baixo, como se mal me conhecesse, e logo passou às formalidades.

— O que é isso?

Sem uma palavra de boas-vindas, ele arrancou as malas das minhas costas.

— São coisas que trouxe de casa — respondi, lutando para segurá-las.

— Temos que confiscá-las — ele retrucou. — No processamento, você vai receber tudo de que vai precisar.

— São minhas roupas!

Não sei por que me importava. É claro, eu teria que usar o uniforme da ADL, então não sei para que minhas roupas serviriam. Mesmo assim, a ideia de tê-las confiscadas me deprimia. Minhas roupas eram parte do que me tornava eu mesmo. Agora, eu seria igual a todos os outros.

Brandon sacudiu a cabeça diante de minhas tolices.

— Você pode dar um jeito de mandar tudo de volta para a casa de seus pais. Quando se formar, elas estarão esperando por você.

Com um aceno rápido de cabeça, ele apontou na direção do escritório de processamento e desapareceu por um corredor.

Sentindo-me pior do que nunca, eu me arrastei até o processamento, onde um ríspido administrador da ADL me entregou três túnicas verdes iguais, embrulhadas em um papel. Depois, ficou parado esperando, e percebi que eu deveria me trocar bem ali, na frente dele, para que ele pudesse recolher as roupas que eu estava usando e decerto levá-las a algum depósito ou incinerador onde o resto de minhas roupas seriam encaminhadas.

— Pode me dar licença? — eu pedi.

Ele virou de costas. Aproveitei a oportunidade e me despi rapidamente, vesti a túnica e escondi minha camiseta Kalvaka preferida dentro das dobras de minha nova e áspera indumentária. Uma peça de roupa de verdade era melhor do que nenhuma.

— Pronto — eu avisei, empurrando o resto de minhas roupas na mão do administrador, na esperança de que, ao ver as peças emboladas em um montinho, o sujeito não notasse que uma estava faltando.

Funcionou. Ele indicou meu dormitório e me mandou ir para lá e aguardar as instruções para o resto de minhas orientações.

Depois de ser destituído de quase todas as minhas posses mundanas, caminhei pelos corredores do prédio, tentando compreender o local. Passei por salas de aula abertas, escritórios administrativos, ginásios e laboratórios e vi até um observatório de Chimæras envidraçado, onde um grupo das lendárias feras lóricas corria em círculos, umas atrás das outras, rosnando e bufando enquanto seus corpos mudavam de forma com a maior facilidade.

Pelo menos elas tinham permissão para andar como quisessem. Parei e as observei por alguns minutos, antes de prosseguir.

Enfim, alcancei o longo corredor do setor de alojamento e cheguei ao quarto 219. Aquele era meu quarto.

Ninguém havia me entregado uma chave, então respirei fundo, bati na porta e esperei.

Um instante depois, a porta se abriu, e um sujeito de olhos pequenos e nervosos, boca grande e nariz redondo me recebeu. Sua túnica verde era idêntica a minha, e eu ingenuamente me perguntei como distinguiríamos uma da outra.

— Você deve ser Sandor — o sujeito disse em um tom ríspido. — Eu sou Rapp. Pode entrar.

Entrei no quarto, me esforçando para esconder meu horror enquanto examinava os beliches, o piso de pedras lisas, as janelas sem cortinas, que davam para um pátio vazio e pouco iluminado.

— Que minimalista — observei.

— Pois é — Rapp disse. — A ADL é muito simples. Estamos aqui para defender Lorien, não para dormir no conforto, eu acho.

Pelo menos ele não pareceu nem um pouco mais feliz do que eu em relação àquilo.

Eu me joguei na cama de baixo do beliche. O colchão era fino e duro.

— Então seremos colegas de quarto? — perguntei. — Você também está em treinamento para o departamento de tecnologia?

— Aham. Vamos nos ver bastante, eu acho. Cá entre nós, você está olhando para a turma toda.

— O quê?

— Somos só nós dois. Eles têm um corpo de uns vinte engenheiros e quinze técnicos ativos em todo o planeta, mas só dois aprendizes de cada vez.

Ah, não. Esse cara até parecia bem legal, mas, se éramos só nós dois, ele poderia ser o sujeito mais incrível de Lorien que mesmo assim enjoaríamos um da cara do outro.

— Mas não é tão ruim assim — ele continuou, sem perceber minha decepção. — Mesmo que sejamos só aprendizes, a equipe anda tão desfalcada ultimamente, que somos enviados para mapeamentos de rede, serviços de reparo nos perímetros eletrônicos, essas coisas.

— Empolgante.

Não tive a intenção de parecer sarcástico, mas não consegui evitar. Aquela seria minha vida nova pelos próximos dois anos, no mínimo, e já parecia um tédio completo.

Felizmente, Rapp era imune à ironia.

— É mesmo — ele concordou. — Saber que estou desempenhando um papel pequeno porém muito importante para proteger Lorien… é uma verdadeira bênção.

Essa eu não aguentei. Dei um pulo da cama.

— Proteger de quê? — perguntei.

— Como assim? — Rapp retrucou, me encarando com cara de bobo.

— Proteger Lorien de quê? Há éons este planeta não sofre um ataque. Mesmo com todas as missões de exploração e reconhecimento, não conseguimos manter nenhum tipo de contato direto com outro planeta por centenas de anos. O que tememos? Uma guerra civil? Todos os lorienos são pacifistas, e mesmo na parte mais perigosa do centro da cidade ou nas regiões menos desenvolvidas dos Territórios Longínquos nada de mau jamais acontece. Veja só, eu sou considerado um criminoso implacável por aqui. E tudo o que fiz foi ser apanhado em um show da Devektra! — Rapp parecia perplexo, mas não me importei. — Você acha mesmo que está fazendo a diferença? — disparei. — Por favor. Todo esse papo de profecias antigas e ataques que certamente nunca vão acontecer… tudo isso é superstição.

Rapp não mordeu a isca. Em vez de responder, caminhou até a porta, sério.

— Daqui a pouco volto para fazermos um tour pelo lugar. Mas preciso dizer que, se essa é a sua atitude logo no primeiro dia, você vai ser muito infeliz por aqui.

Aham, eu pensei. Nem me diga.

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