Capítulo Quinze |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

NÓS CHEGAMOS À NAVE A TEMPO.




Estacionei a motocicleta e corri até a nave com o garoto nos braços, procurando por Brandon e abrindo caminho por entre um grupo de kabarakianos e Gardes da FDL que, em meio ao caos, organizavam um perímetro ao redor da nave.

Os mogadorianos chegariam a qualquer momento. Esses lorienos seriam a única proteção à nave durante a decolagem. Como eu, eles ficariam para trás. Nós iríamos morrer. Não havia escapatória. Porém, com um pouco de sorte, as nove crianças e seus Mentores viveriam, e, com eles, o povo lorieno sobreviveria.

Os oito Cêpans Mentores aguardavam a partida do lado de fora da nave, enquanto as oito crianças – cujas idades variavam entre a primeira infância até os seis anos – estavam posicionadas em um círculo no chão. Um sujeito se inclinava perto de cada uma das crianças, tocando suas cabeças.

Era o Ancião Loridas. Parecia estar abençoando as crianças ou algo assim. Bem, se eu ia morrer, pelo menos poderia dizer que finalmente vi um dos Anciões.

Quando Brandon me avistou chegando, um olhar de nojo começou a surgir em seu rosto. Até que ele viu o garoto.

— Este é o nono — eu expliquei. Sabia que eles partiriam a qualquer momento e, ansioso para convencê-lo, as palavras saíram sem parar. — Não é tarde demais. Você precisa…

— Quieto — disse Brandon, pegando a criança.

Correu até Loridas, que havia acabado de terminar o que quer que estivesse fazendo com as outras. Nervoso, observei os dois conversarem e me perguntei como Loridas teria conseguido chegar ao planeta.

— Só sobrou ele. — Eu me virei e vi uma mulher com cabelos longos e negros, com uns trinta e poucos anos. Ela percebeu meu olhar de confusão. — Os outros Anciões se foram. Eles se sacrificaram por nós.

— Pittacus também? — perguntei estupefato.

Eu nunca havia pensado muito em Pittacus Lore, jamais demonstrara diante de seu nome a admiração irrestrita que tantos outros lorienos tinham por ele, mas ainda era um choque. Mesmo com tudo o que acontecera naquele dia, jamais me ocorreu que ele pudesse ter ido. Era quase inimaginável.

Uma ruga de incerteza surgiu na face da mulher.

— Pittacus está… desaparecido — ela disse. — Talvez ainda esteja vivo. Não sabemos.

Eu não respondi. O que havia a dizer?

— Você parece muito jovem para ser um Cêpan Mentor — ela continuou.

— Sou apenas um aprendiz — respondi, os olhos fixos em Brandon, Loridas e no garoto. — Engenharia. Não sou Mentor.

— Quase me enganou — ela disse, lançando um olhar para o garoto.

Loridas o pegou pela mão e o conduziu ao único espaço que restava no círculo. Todas as outras crianças observavam enquanto Loridas iniciava uma espécie de ritual.

— Por que eles são todos tão jovens? — perguntei à mulher. — São muito pequenos para terem sido treinados na Academia.

— Estas crianças foram identificadas pelos Anciões como as mais poderosas de sua geração — ela me explicou. Parecia melancólica ao proferir as palavras. — Eles têm uma longa jornada pela frente. Terão que aprender a se adaptar a um novo lar e a um novo estilo de vida, diferente de tudo o que já vimos por aqui. Quanto menos lembranças de Lorien tiverem, melhor. Será mais fácil para eles.

Eu assenti com tristeza e me virei para observar o ritual. Estava ansioso para ver tudo, mas Brandon me puxou para o canto da pista de decolagem.

— Ele foi admitido. Os oito agora são nove — ele disse. — O mais engraçado é que o Ancião Loridas não ficou nem um pouco perturbado. Quando eu disse que o nono havia chegado, e ele se virou e olhou para mim como se soubesse o tempo inteiro que a criança estava a caminho.

Eu me virei para os Cêpans Mentores reunidos, para os Gardes ordenados no chão, para a nave que os levaria embora deste planeta. Temi por meu próprio futuro, mas estava determinado a não deixar meu medo transparecer para Brandon. Eu queria que minha partida fosse nobre e triunfal.

— Vá — eu disse. — Eu me juntarei os guardas do perímetro.

Os sóis estavam começando a nascer. As chamas e a fumaça da destruição do planeta coloriam o crepúsculo.

— Boa sorte por lá — completei.

— Espere — Brandon disse. Eu me virei para ele. — Você vem conosco.

— Eu? Não há espaço. — Senti meu coração pular dentro do peito. Mas eu não podia ir junto. — E o resto do povo aqui? As pessoas que lutaram esse tempo todo? As que realmente acreditavam?

— O garoto precisa de um Mentor. Você o trouxe até aqui. Ele confia em você. O vínculo já se estabeleceu. Eu sinto isso. Tem que ser você.

— Mas eu não fui treinado.

— A única coisa que cada um de nós precisa de fato saber é que sempre devemos colocar a sobrevivência de nosso Garde na frente da nossa. — Brandon lançou um olhar para o garoto. — E parece que essa parte você já entendeu.

Mais uma explosão ressoou a quase um metro de distância, atraindo nosso olhar para o céu e para uma gigantesca nave mogadoriana que se aproximava. O que pareciam ser pequeninas nuvens que saltavam da nave de paraquedas e aterrissavam suave e silenciosamente.

Era claro, porém, que aquilo era uma ilusão de ótica. Não eram nuvens. Eram tropas mogadorianas de ataque terrestre. E não havia nada de delicado nelas.

Meu destino estava traçado. Corremos até o resto do grupo para embarcar na aeronave e deixar nosso amado planeta Lorien, antes que fosse tarde demais.

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