Capítulo Seis |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

EM MEU DÉCIMO PRIMEIRO DIA NA ADL, ACORDEI COM RAPP PUXANDO MEU BRAÇO.




— Ande logo, Sandor — ele disse. — Vamos chegar atrasados.

— Sua mãe é uma bunda de Chimæra — murmurei irritado, empurrando Rapp e cobrindo a cabeça com meu lençol áspero e fino.

Esse havia se tornado nosso ritual matinal. Ele tentava me acordar, me lembrando de que era Dever Solene Lórico levantar com energia para o trabalho, e eu inventava xingamentos cada vez mais vívidos para mandá-lo me deixar em paz. Ambos estávamos nos cansando dessa rotina.

— Muito bem — Rapp disse se virando para sair. — Então vou sozinho ao centro da cidade.

Abri os olhos e me sentei na cama.

— Centro da cidade?

— Aham. Encontrei Orkun no refeitório, ela disse que as aulas foram suspensas e que temos que comparecer ao transporte imediatamente. Ela quer que a gente aproveite o tempo livre para fazer uma manutenção na rede.

— E por que você não disse isso logo?

Eu já estava fora da cama e vestindo a túnica às pressas, empolgado com a oportunidade de ir à cidade.

Ele apenas deu uma risada de desdém enquanto eu me olhava no espelho tosco e minúsculo acima de minha cômoda, tentando em vão assentar com cuspe as pontas irregulares do redemoinho de meus cabelos.

— Cara — ele disse — você acha que ficar se arrumando vai fazer alguma diferença? As garotas da cidade sequer notam a gente. Essas túnicas podem muito bem ser capas de invisibilidade.

Eu sabia que ele tinha razão, mas mesmo assim grunhi. Dei as costas para meu reflexo no espelho e caminhei até a porta, e meu colega de quarto me seguiu. Era difícil ficar muito aborrecido. Não, a manutenção da rede não era tão empolgante nem nada do tipo, mas mesmo assim iríamos para a cidade.

Chegamos ao hangar de transporte e entramos no único veículo de dois lugares disponível da Academia: uma estrutura em forma de gota, que alguns estudantes chamavam de Ovo. Observei, do banco do passageiro, Rapp falar com um aparelho receptor no painel, programando nossa viagem até o centro da cidade de acordo com as instruções que Orkun havia lhe passado. “Setor três-dois-nove, módulo de segurança H, área três.” Ele folheou um fichário e apanhou coordenadas extras. “Setor dois-nove-sete, módulo J, área sete.” Ele tinha um sorrisinho convencido no rosto enquanto dizia isso, como se essas coisas o fizessem se sentir muito importante ou coisa do tipo.

Eu não conseguia entender Rapp de jeito nenhum. Como alguém podia se empolgar em trabalhar na manutenção da rede? Era como se animar em escovar os dentes, com a diferença de que escovar os dentes só leva dois minutos, e isso quando se escova muito bem.

Ao mesmo tempo, eu me sentia meio mal por sempre ser chato com ele. Rapp, com seu jeito estranho, era como eu. Eu estava no programa de engenharia da ADL porque havia sido forçado, mas ele queria mesmo estar ali.

Considerando que só havíamos nós dois na turma, ele se tornava ainda mais esquisito do que eu. Mas ele não se importava. Na maior parte do tempo, mal percebia quando eu caçoava dele. Eu deveria admirar o rapaz.

Claro que jamais contaria isso a ele, mas pensei que pudesse ao menos dizer que não achava que a mãe dele se parecia mesmo com uma bunda de Chimæra, e que ela provavelmente era uma gata.

No entanto, antes que eu sequer pudesse formular meu pedido de desculpas, ele deu as últimas coordenadas, e o Ovo decolou, nos lançando para fora do hangar, passando pelo prédio quadrado da Academia e seguindo por pastos, cabanas de barro e criadouros de Chimæras do Kabarak de Alwon.

Alwon era o único Kabarak dentro dos limites urbanos de Lorien, e por isso teria sido minha primeira opção caso eu fosse designado para um deles.

Observei os kabarakianos madrugadores, vestidos em seus trajes vermelhos e seus amuletos cerimoniais, concentrados em seu trabalho na terra, indiferentes a mais uma invasão rotineira do veículo da ADL, enquanto nosso Ovo passava zunindo e dava a volta por eles.

Era engraçado pensar que apenas algumas semanas antes eu estava deprimido e em pânico com a ideia de trabalhar em um Kabarak. Depois desse tempo na Academia, não parecia mais um jeito ruim de viver. Pensando bem, talvez eu estivesse só com inveja das roupas deles – eu ficava muito melhor de vermelho do que de verde.

O Ovo cruzou a ponta oeste de Alwon, ganhou velocidade e seguiu pelas despovoadas áreas industriais da parte leste da cidade em direção ao centro, a quilômetros de distância. Os Pináculos de Elkin reluziam com o brilho dos sóis matinais. Percebi que nunca tinha visto o centro daquela distância e ângulo em especial. Talvez fosse nostalgia ou saudade de casa, mas a cidade parecia mais linda do que nunca.

Então, para além dos Pináculos, notei algo estranho.

A distância, brotando no horizonte por entre os Pináculos, uma intensa coluna de luz branca atinge as nuvens. Era uma manhã clara, mas nem os raios dos sóis eram capazes de suavizar a intensidade da luz, maciça e quase palpável.

Era surpreendente.

— O Quarto Crescente é daqui a três dias — Rapp disse, mal olhando para a luz.

Segundo a lenda nativa, havia um Quarto Crescente no céu no dia em que os Primeiros Anciões descobriram as Pedras da Fênix, e, com o passar dos anos, foi criado um feriado no período de surgimento regular do Quarto Crescente. Dentro e fora da cidade, nas instalações e Kabaraks, todos festejavam até altas horas, dançando, reunidos em torno de fogueiras e soltando fogos de artifício para celebrar o milagre do renascimento de nosso planeta. Monumentos temporários e projeções luminosas, chamadas Arautos, eram providenciados pelo governo da cidade ou pelo Conselho dos Anciões para comemorar nossa história e festejar a chegada do Quarto Crescente.

Aquele era um Arauto muito maior e mais elaborado do que todos que eu já presenciara, tão alto e majestoso que talvez pudesse ser visto de fora da cidade – se é que sequer estava dentro cidade. Era um tanto estranho, mas não dei importância. Se existe algo em que nós, lorienos, para não citar os Anciões, somos muito bons, é criar novas maneiras de celebrar nossa grandeza.

Eu particularmente achava que os Anciões poderiam arrumar formas muito melhores de gastar seu tempo e poderes, mas quem era eu para questionar sua sabedoria milenar?

Quando o Ovo enfim parou zumbindo em um canto do Parque Eilon, senti uma pontada de surpresa.

— Espere aí — eu disse, me virando devagar para Rapp. — É aqui que vamos fazer a manutenção da rede?

Rapp me olhou como se eu tivesse enlouquecido.

— É claro — respondeu. — Disse que estávamos vindo para o centro da cidade. Por quê?

— Porque — eu retruquei — essa é a Kora. — Apontei para uma porta insignificante no canto de um grande prédio insignificante. — Essa é a entrada dos fundos.

— Essa é a boate de que você tem falando esse tempo todo? — Rapp empurrou a porta do Ovo e pulou para fora, seus pés atingindo o chão com um baque. — Vou lhe contar, cara, eu imaginava algo… sei lá, mais bacana e tal. Isso aqui parece um galpão enorme e imundo.

Franzi a testa enquanto pulava para fora atrás dele.

— Essa é a porta dos fundos — disse. — De qualquer forma, o lado de fora não é mesmo para se parecer com nada. Isso a torna ainda mais especial quando você vê o lado de dentro.

Rapp balançou a cabeça, curioso, deu de ombros como se dissesse você quem sabe e se dirigiu a um poste que se elevava da base da Colina de Eilon.

Antes de aprender a falsificar meu bracelete de identificação, aquele era praticamente o único lugar aonde eu podia ir para dançar e me divertir à noite, quando meus pais estavam fora da cidade. Não era nem de longe tão legal quanto a Chimæra, a música na verdade era bem ruim na maior parte do tempo, e, além disso, o lugar ainda meio que fedia. Porém, como não serviam ampolas, não havia restrição etária para entrar. Era o que eu podia ter.

Naquele momento, no entanto, eu daria qualquer coisa para voltar à Kora, mesmo com a música ruim e o fedor. De repente, senti falta daquele cheiro.

Eu estava parado do lado de fora, vestindo uma túnica verde, feia e amarrotada, e, bem, não havia nada que eu pudesse fazer a respeito disso.

Arrastei os pés mais para perto de Rapp, que já havia subido um terço da altura até o painel de controle da rede pelo poste, usando um arnês, e me preparei para ser içado com ele. Pelo menos lá de cima ninguém me reconheceria na túnica.

Antes que eu começasse minha subida, Rapp me chamou lá de cima.

— Este aqui não está em condições tão ruins. Acho que dou conta. Eu disse a Orkun que poderia consertar sozinho, mas ela ainda não confia em mim.

Fiquei incomodado. Não é que eu estivesse animado com a ideia de subir até lá só para ficar brincando durante horas com um monte de fios, mas pelo menos era alguma coisa para fazer.

— E agora? Tenho que ficar aqui olhando você trabalhar?

Rapp, já concentrado em rodar os diagnósticos no painel de controle, deu um suspiro e olhou para mim.

— Se quiser ajudar, vá verificar a próxima área da lista. Dá para ir andando até o Setor dois-nove-sete, mas se estiver com preguiça pode programar o Ovo, depois encontro você lá.

Rapp retornou ao trabalho. Parecia que estava tentando me irritar. Ele sabia que eu nunca havia feito uma operação de manutenção antes e não tinha nem ideia de como começar. Estava me forçando a pedir ajuda. Talvez me conhecesse mais do que eu imaginava: se existe algo que odeio é pedir ajuda.

— Rapp, você sabe que nunca fiz isso antes.

— Orkun repassou cada passo dois dias atrás na aula.

Sério? Honestamente, não me lembrava.

— Acho que não prestei atenção — respondi.

— Também estava no dever de casa. Ah, espere… você nunca faz o dever de casa.

Por um segundo, pensei que ele estivesse realmente bravo, mas então começou a dar uns risinhos e passou a chave do Ovo para mim.

— O kit reserva está atrás do banco do passageiro. O equipamento é basicamente autoexplicativo, mas se você se confundir pode sempre apertar o botão de ajuda para ativar as instruções. — Ele voltou ao trabalho. — Pode confiar, não é tão difícil. Se conseguiu enganar o escâner da porta da Chimæra, vai resolver isso em dois tempos.

Subi a Colina de Eilon com o kit nas costas e um módulo de informações na mão – um dispositivo pequeno e quadrado que marcava minha localização exata na cidade, e também permitia que eu me comunicasse com Rapp ou até com outros Cêpans na Academia, caso fosse necessário.

Ainda que conhecesse aquela área como a palma de minha mão, nunca me dera o trabalho de aprender o sistema oficial de coordenadas da cidade. Ao cruzar a colina e entrar no distrito comercial ao norte do Parque Eilon, o módulo indicou que eu acabava de entrar no Setor 302, que a maioria das pessoas chama de Crescente devido à curva que a avenida principal vai descrevendo, em forma de lua.

Observei o módulo com um estranho fascínio à medida que meus antigos esconderijos preferidos do bairro – o Pit, a Arcádia – eram convertidos para seus numerais Munis em meu dispositivo: 282, 304, 299.

Enfim, cheguei ao 297. Ao olhar pelo localizador, me surpreendi ao perceber que estava bem do lado de fora da Chimæra. Dei um suspiro discreto, tentando não pensar muito nisso. Não importava na frente de qual prédio eu estava. Não estava ali para entrar em lugar nenhum. Não podia entrar.

Estava ali para subir no poste.

Então, coloquei o arnês e comecei a subir. Quando cheguei ao topo, olhei para o horizonte. Dali de cima, a coluna de luz que Rapp e eu tínhamos visto antes parecia ainda mais impressionante. Bem, talvez impressionante não fosse a palavra certa. Na verdade, era meio assustadora. Ela vibrava e pulsava de um jeito quase sobrenatural. E era difícil dizer de onde vinha – poderia estar a poucas quadras ou a centenas de quilômetros de distância. Não se parecia com nada que eu já vira em outra celebração do Quarto Crescente.

Mas isso não era problema meu. Eu estava ali para trabalhar na rede. Então, destravei a frente do painel de controle, o abri e encontrei o teclado numérico imprensado em um espesso ninho de fios coloridos embolados.

Dei outro suspiro, mais longo e profundo que o anterior.

Aquilo ia demorar.

Ainda era o final da manhã, praticamente o único horário do dia em que a boate não estava lotada. A entrada da Chimæra ainda estava vazia. Porém, eu sabia que a multidão começaria a chegar dentro de algumas horas. Por um segundo, me perguntei o que meus amigos pensariam se algum deles esbarrasse comigo. Então, percebi que provavelmente nem me reconheceriam. Para eles, então, eu era só mais um cara de túnica verde.

O trabalho me absorveu de maneira surpreendente. Comecei rodando diagnósticos automáticos em fios individuais para determinar se precisavam ser substituídos. A única parte complicada era descobrir quais fios eram quais. Estavam todos numerados, e os danificados tinham que ser removidos e substituídos dentro de uma sequência correta, do contrário eu estragaria a peça inteira. Contudo, como Rapp prometera, o sistema de ajuda do kit forneceu instruções muito úteis quando eu fiquei confuso ou tive dificuldade em identificar a olho nu um dos fios danificados.

Fazia semanas desde que eu aprontara com o sistema do bracelete de identificação, e acabei me esquecendo de como sentia falta desse tipo de brincadeira. Em minha breve estada na ADL, já havia me esquecido de como eu era realmente bom nisso. Gostei de poder avançar um passo de cada vez, gostei da forma como todas as peças se encaixaram como em um quebra-cabeça. Gostei do fato de que, mesmo sem ter a mínima ideia do que estava fazendo, dava muito bem para descobrir só com alguma noção dos princípios básicos.

Em pouco tempo, eu já não precisei mais do módulo de ajuda. Já identifiquei as sequências de fios sem dificuldade e as ajustei com facilidade, agindo quase instintivamente.

Eu nunca havia refletido muito sobre a rede ou que função vital ela desempenhava para a cidade. Além de monitorar e registrar os acontecimentos da Capital por meio de sensores sofisticados, e compilar informações para os Munis sobre o fluxo de pessoas e mercadorias – mantendo tudo em perfeita ordem – a função menos popular da rede era a de proteção. Os postes insignificantes, tão onipresentes que mal se reparava neles, na realidade mantinham uma estrutura invisível de escudos de defesa e sistemas de contra-ataque sobre a linha do horizonte. O raciocínio por trás da instalação da rede, algumas centenas de anos antes, era o de que a cidade possuía a maior densidade populacional do planeta e abrigava os mais importantes membros do governo lorieno, além de ser o ponto central de sistemas fundamentais de informação e comunicação. Qualquer inimigo que planejasse um ataque a Lorien alvejaria a cidade primeiro.

Eu ainda não acreditava que uma coisa dessas aconteceria, mas tinha que admitir, ainda que relutante, que a coisa toda era bem legal. Pena que também era inútil.

Enquanto trabalhava de forma quase inconsciente, contemplava a rede com um novo interesse. Um em cada quatro fios em que eu rodei o diagnóstico precisava ser substituído, o que me pareceu estranho. Peguei o kit para checar a data da última conferência de manutenção do poste e fiquei surpreso em descobrir que fazia apenas algumas semanas. Aqueles fios estavam se deteriorando em um ritmo bem acelerado.

De todos os fios nos quais eu estava trabalhando, havia poucos de reserva ou repetidos – praticamente cada fio servia a uma única função – e vários estavam danificados, o que significava que aquele poste estava comprometido.

Se eu compreendesse bem a natureza do escudo de defesa da rede, diria que toda a área naquele entorno estava vulnerável a ataques. Por que isso aconteceu, se os fios tinham sido consertados havia pouco tempo? Eu me perguntei se o painel de controle possuía alguma falha técnica que estava encurtando a vida útil dos fios mais depressa.

Com a curiosidade atiçada, corri com o trabalho, ansioso para encontrar Rapp e perguntar se ele vira algo similar nos postes onde havia trabalhado. Queria saber se era coincidência ou se havia um problema maior.

Não que eu me importasse.

— Que história é essa de homem usar vestido?

Eu estava tão absorto em meu trabalho, que a voz inesperada fez meu coração pular para a garganta. Soube exatamente quem era, mesmo sem olhar para baixo.

Mesmo assim, olhei.

A peruca branca dera lugar a cabelos castanhos bem curtinhos; agora, ela usava um vestido vermelho simples, curto e evasê. O vestido, assim como o cabelo, era estampado com bolinhas brancas irregulares.

Eu nem fazia ideia de como se estampava bolinhas no cabelo. Seria esse mais um Legado de Devektra? Honestamente, vindo dela, nada me surpreenderia.

— Ei — respondi.

A palavra saiu de minha garganta como um estranho coaxar.

Ela olhou para cima, pressionando os lábios em um sorriso e protegendo os olhos dos sóis.

— Jamais imaginei que você fizesse o tipo aprendiz dos Munis — ela disse.

— ADL, na verdade — corrigi, determinado a esconder minha vergonha. — Aprendiz de engenharia. — Então, percebendo o quanto parecia idiota, acrescentei: — Só estou nessa por causa da túnica.

Ela soltou uma risada alegre e espontânea.

— Até que não fica tão mal em você — ela disse. — Só não entendo por que vocês homens usam essas calças ridículas de pijama por baixo. Qual é o sentido em usar um vestido e não mostrar as pernas?

— Você não diria isso se já tivesse visto minhas pernas — respondi, e voltei ao trabalho.

Naquele dia eu não estava no clima de ser caçoado pela garota mais atraente do mundo. Entretanto, para minha surpresa, Devektra não foi embora.

— O que exatamente você está fazendo aí em cima? — ela perguntou. — Sempre quis saber para que servem esses postes.

— É a rede.

Não quis encorajar sua encenação de bobinha. Todo mundo sabia o que era a rede. A maioria escolhia não se importar.

— A rede — ela repetiu. — Então acho que você é uma dessas pessoas que acredita naquela coisa toda…

— O que você quer dizer com “naquela coisa toda”?…

— Profecia dos Grandes Anciões, ameaça a Lorien, eterna vigilância, blá-blá-blá. Se você não consertar essa caixa em um segundo, os alienígenas vão aterrissar amanhã e abduzir todos nós para limpar as privadas deles!

Eu pensei por um instante. Não, eu não era uma dessas pessoas. Claro que não. Levando em conta o que andei dizendo a Rapp a semana inteira, fiquei surpreso em me ver resistir a essa interpretação. Em vez de rir com ela, eu mordi a língua, substituí os últimos fios defeituosos, fechei a frente do painel de controle e me ajeitei para descer.

Devektra não fez menção de ir embora.

— Você não tem nenhum show e precisa se preparar? — perguntei.

— Que nada — ela respondeu, se encostando na porta de entrada e me encarando com um sorriso duro e impenetrável. — Só vim fazer uma prova de roupa. Não me apresento de novo até o Quarto Crescente.

— Ah — respondi, jogando o kit por cima do ombro.

— Você deveria vir.

Eu olhei para ela, surpreso com o convite e me perguntando se ela estava brincando comigo. Ela esteve caçoando de mim aquele tempo todo, certo?

Ela abriu um sorriso. Era como se soubesse o efeito que exercia sobre mim.

É claro que sabe, lembrei, furioso. Ela pode ler meus pensamentos.

Ela deu uma piscadela, se virou e saiu caminhando sem dizer nenhuma palavra. E eu fiquei lá, balançando, pendurado feito um idiota em meu poste idiota.

Mesmo que ela tivesse falado sério, o que eu não tinha certeza – ler pensamentos deve ter seus benefícios – nunca poderia aceitar seu convite. Em primeiro lugar, eu não tinha permissão para sair do campus da ADL depois de escurecer; em segundo, eu jamais conseguiria entrar na Chimæra depois do problema da última vez.

Naturalmente, Devektra sabia de tudo isso. Eu quase me deixei acreditar que ela estava falando sério.

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