Capítulo Sete |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

QUANDO CHEGUEI AO PÉ DA COLINA DE EILON, ENCONTREI RAPP ENVOLVIDO NUMA conversa séria com um Cêpan Mentor que eu jamais vira.




— Este é Daxin — ele me apresentou quando me aproximei.

O sujeito não parecia nada interessado em me conhecer, mas eu o cumprimentei com um aceno sem muito entusiasmo mesmo assim. Ele ignorou.

— Precisarei confiscar o transporte de vocês pelo resto do dia — Daxin disse. — Aconteceu uma coisa, e não tenho tempo de retornar à ADL.

— Claro — eu disse, dando de ombros. — Pode levar. Podemos terminar nossa manutenção da rede a pé e depois voltar caminhando para a Academia.

Fiquei irritado com a ideia da longa caminhada de volta, mas não quis deixar que eles percebessem.

— Ele não pode levar o Ovo sem um de nós junto — explicou Rapp. — Nós somos a tripulação programada para hoje; a nave só dá partida com um de nós dois ao volante.

Aparentemente sentindo que a situação havia sido bem explicada, Daxin se dirigiu ao Ovo e pulou no banco do passageiro. Rapp notou minha confusão.

— Eu ofereci você para acompanhá-lo — ele disse.

— Por que eu e não você?

Não quis admitir, mas eu me senti frustrado. Estava realmente começando me divertir com o trabalho de reparo na rede.

— Porque ainda temos cinco setores e oito áreas para cobrir, e meu ritmo de trabalho é melhor do que o seu.

Eu paralisei.

— Não, eu fiz um e você fez um…

— Eu fiz três — Rapp me interrompeu. — Só voltei para apanhar o Ovo e acabei encontrando Daxin.

Ele já tinha terminado três? Será que eu havia sido mesmo tão devagar assim? Eu teria que começar a prestar atenção às aulas se não quisesse parecer um idiota.

— Desse jeito ainda temos uma chance de completar a lista até o final do dia.

— Tudo bem — eu respondi, sentindo uma estranha decepção.

— Teremos outros dias de manutenção da rede.

— Aham — disse. — Eu sei. Serei mais rápido da próxima vez.

Saí dali e entrei no Ovo. Já o havia conduzido pelo campus da ADL antes, mas era a primeira vez que eu o pilotava de verdade, e senti um arroubo de empolgação. Quer dizer, nem era grande coisa pilotá-lo, já que ele fazia a maior parte do trabalho sozinho, mas mesmo assim. Era um ovo gigante que voava… como uma coisa dessas poderia não ser divertida?

As portas se fecharam atrás de mim com um assobio.

Foi só quando me sentei que notei a estranha energia que emanava de Daxin. Ele estava agitado e nervoso, e tive a impressão de ter visto uma linha de suor se formando em sua testa.

— Para onde vamos? — perguntei.

— Oeste, no Kabarak de Malka — ele respondeu. — Pode mandar o Ovo parar lá. Percorreremos o resto do caminho a pé.

Dei as coordenadas para o receptor, e o Ovo decolou para fora da cidade.

Quando ultrapassou os limites urbanos, ganhou velocidade.

Irritado pelo modo como Daxin batucava nas pernas e olhava, nervoso, ao redor, fixei os olhos à frente na paisagem, que se movia com rapidez, sem dizer uma palavra. As planícies cobertas de terra que circundavam a cidade deram lugar à vegetação cada vez mais exuberante do restante de Lorien. Eu havia passado tão pouco tempo fora da cidade, que foi um choque lembrar como uma parte imensa de nosso planeta era verde.

A barreira de luz branca continuava aparecendo por cima do topo das árvores.

— Todos os Anciões viajaram este ano — comentei, tentando em vão puxar papo com Daxin.

Ele não respondeu.

— O Arauto? — eu continuei, apontando para a janela. — Deve ter levado pelo menos um mês para aprontarem esse aí.

Daxin se remexeu, desconfortável, no assento, evitando meu olhar.

— Aham — ele disse.

— O quê? — perguntei.

Não gostava da energia que ele me passava. E nunca o tinha visto antes. Mas Rapp sabia quem ele era, então não havia motivos para não confiar no sujeito.

— Nada — ele respondeu. — É que a gente ainda não sabe se aquilo é mesmo um Arauto.

Mistério e mau agouro. Que ótimo.

— Como assim? — eu insisti.

— Os Anciões estão há algum tempo fora do planeta, e nos últimos dias estão incomunicáveis.

Não consegui descobrir aonde ele estava tentando chegar.

— É, mas não é nada de mais, certo? Achei que eles ficavam muito tempo fora do planeta. Eles não passam um tempão fazendo aquele monte de coisas que os Anciões fazem e que nós nunca conseguimos entender?

— Claro — ele respondeu.

Mas pareceu cético. Então, algo me ocorreu.

— Isso tem alguma coisa a ver com o cancelamento da minha aula de engenharia hoje?

Daxin me deu uma olhadela, piscou e me encarou de novo. Sem dúvida minhas suspeitas estavam certas.

— Orkun e alguns conselheiros viajaram até a coluna — ele admitiu. — Para fazer uma averiguação, investigar. Provavelmente não é nada.

— Por que você está tão preocupado? Se a luz não é um Arauto, o que acha que é?

— Olhe, não se preocupe, está bem? Só tive um dia cansativo.

Eu afundei de volta em meu assento, um pouco irritado. Alguns dias antes, eu mal me importava com o que acontecia nos bastidores do conselho, com os Cêpans Mentores e as outras figuras da ADL, mas quando eu finalmente comecei a demonstrar algum interesse, me mandaram cuidar da minha vida. Era frustrante.

O Ovo iluminou alguns acres de floresta especialmente densa e aterrissou às margens do Kabarak de Malka. Daxin pulou para fora e imediatamente deu as costas à cerca do perímetro, se afastando de onde paramos.

Eu corri para alcançá-lo.

— Por que estamos caminhando? Por que não inserimos logo as coordenadas, se você sabia aonde iríamos?

Daxin respondeu sem reduzir a velocidade.

— Eu vim encontrar um Garde. O meu Garde.

Ah. Se Daxin havia sido promovido a Cêpan Mentor recentemente, dava para deduzir que seu mau humor talvez fosse puro nervosismo. A primeira reunião de um Cêpan Mentor com seu Garde é um negócio muito importante. O vínculo entre os dois é considerado quase sagrado – quase tão forte quanto o vínculo entre pais e filhos. E durava para vida inteira, mesmo depois que o Garde se tornava adulto e deixava de viver sob a tutela direta do Cêpan. Dava para entender que o primeiro encontro com alguém com quem se terá esse tipo de relação era algo capaz de fazer uma pessoa entrar em pânico.

Daxin continuou falando enquanto seguíamos pela trilha.

— O Garde foi criado pelo avô, e o avô tem uma razão para morar tão longe da cidade. Ele odeia tecnologia, transportes velozes. Sabe, gosta de tudo à moda antiga. Eu não quis surpreendê-lo com o barulho do motor.

Pouco a pouco, uma pequena cabana foi surgindo na nossa frente, seguida por uma figura que se aproximava velozmente. Corria bem na nossa direção. Uma Chimæra.

Antes que eu percebesse o que estava acontecendo, a Chimæra saltou e me atingiu em cheio, e fui derrubado de costas no chão.

A Chimæra assumira uma forma canina gigantesca e com dentes arreganhados. Botou para fora uma imensa língua canina, que envolveu todo o meu rosto em uma lambida áspera. Em segundos eu estava ensopado.

Chimæras são muito comuns na maior parte de Lorien, mas elas costumam ficar longe da cidade. Eu não levava uma lambida de uma criatura dessas desde que era criança, e já naquela época não era nada agradável.

— Byscoe! Byscoe! Quieto!

O animal respondeu de imediato ao som da voz do dono. Saltou de cima de mim, obediente, e correu pela estrada na direção da voz.

Daxin me lançou um olhar irônico, enquanto eu me levantava e me limpava. Um instante depois, Byscoe retornou com seu mestre, um rapazinho de sorriso largo, vestindo um traje característico da Garde ajustado ao corpo.

A pele e o cabelo do garoto estavam uma bagunça, cobertos de pó vermelho, e o branco dos olhos e dos dentes se destacavam sob a máscara de terra que cobria seu rosto. Ele agarrou um tufo do pelo de Byscoe e subiu na Chimæra com um pinote, sem medo algum. Muitas pessoas do interior agiam assim com os animais; eram criados com eles. Ainda assim, eu achava estranho. Mesmo quando assumiam formas felpudas e fofinhas, era difícil esquecer o quão poderosos eles eram na verdade.

— Oi — o garoto disse.

— Oi — Daxin respondeu, desajeitado.

Percebi que ele não sabia ao certo o que fazer em seguida.

Logo depois, um homem robusto saiu da cabana e veio caminhando pela estrada em nossa direção, sem pressa. Não tão sujo de terra quanto o garoto, ele estava vestido de forma modesta, calças folgadas de lona e alguns pingentes cerimoniais. Sua pele era queimada, ressecada e rachada pelos ventos longínquos.

— Olá — ele nos cumprimentou, a alguns passos de distância. — Posso ajudar?

— Pode — Daxin respondeu. — Somos do Conselho de Defesa de Lorien. Fui designado Mentor de seu neto.

— Um pouco cedo — o homem disse, inclinando a cabeça. — O garoto ainda tem alguns anos até a tutela da ADL.

— Vovô? — perguntou o garoto, ainda montado na Chimæra.

O avô continuou encarando Daxin e ignorou o neto. Daxin parecia nervoso. Revirava desajeitadamente as dobras da túnica à procura de algo.

— No momento, não precisamos de nada do senhor além do consentimento para entregar isto a seu neto. — Daxin tirou um bracelete de dentro da túnica.

Basicamente igual ao bracelete de identificação do governo que eu adulterara algumas semanas antes, porém maior. — Novo protocolo de segurança, só isso.

Eu não fazia ideia do que ele estava falando – os protocolos da Garde e de seus Mentores definitivamente não era um assunto que eu já houvesse estudado – mas imaginei que o CDL estava fazendo algum rastreamento de jovens Gardes.

O avô pareceu relutante, mas o garoto avançou correndo, montado em Byscoe, e apanhou o bracelete da mão de Daxin. Deu um salto triunfante de cima da Chimæra, deslizou o bracelete pelo pulso até o cotovelo, depois disparou pela estrada, levantando uma nuvem de poeira vermelha em seu encalço.

— É uma criança muito alegre — o avô afirmou.

Havia uma tristeza na forma como ele falou, algo que eu não soube identificar ao certo.

— Ele precisa usar o bracelete o tempo todo — Daxin parecia ansioso em relação a essa questão. Pude notar sua preocupação. Uma coisa era o garoto usar o bracelete por diversão, como uma brincadeira, e outra era garantir que ele continuasse a usá-la. Daxin precisava contar com o avô. — É uma ordem.

— Compreendo — o senhor disse. Mas ficou parecendo que não compreendia.

Alguns minutos depois, estávamos de volta a nossos assentos no Ovo. Esperei que Daxin fornecesse nossas coordenadas seguintes. O dia já estava ficando longo demais, para não dizer muito esquisito. Na realidade, me peguei de fato com vontade de retornar à Academia.

Por um instante, Daxin ficou calado.

— Então? — perguntei por fim. — Vamos para casa ou o quê?

Antes que ele pudesse responder, seu módulo apitou, e ele baixou a cabeça para ler a mensagem. Fez uma careta e se voltou para mim.

— Faça um favor — ele pediu, estendendo o pulso. — Última etapa. Preciso sincronizar meu bracelete com o que acabamos de entregar ao garoto.

Peguei o pulso de Daxin e olhei para o bracelete de metal que o envolvia. A maioria dos braceletes de identificação era só braceletes – aros simples que continham todo o circuito dentro e se pareciam quase com uma joia comum. A de Daxin era diferente. Possuía uma pequena interface digital e alguns botões.

— Apenas aperte o botão preto enquanto inicio a sincronização — ele pediu.

Enquanto eu pressionava o botão, ele começou a digitar uns comandos no módulo de comunicação, que decerto estavam sendo retransmitidos ao bracelete de identificação.

— Difícil de manejar — eu disse.

— Demais — concordou Daxin, ainda digitando. — Desde que peguei esse bracelete e esse localizador mais desenvolvidos, tenho que tirá-lo do pulso todas as noites. É muito grande e pesado, e atrapalha para dormir.

Olhei para o bracelete no pulso de Daxin e o enxerguei com novos olhos. Não era mais um bracelete de identificação ou um localizador.

Era uma chave.

Naquela noite, me deitei no beliche antes do jantar, assimilando os eventos do dia. Não havia como negar que aquele lugar estava começando a me envolver. Um mês antes eu não me importaria em ver a rede em um estado tão deplorável. Um mês antes eu mal sabia o que era a rede, inclusive.

No entanto, naquela manhã, quando Devektra apareceu e me chamou de “uma dessas pessoas”, eu não a corrigi. Na realidade, me senti quase insultado. Parecia que aquele lugar estava exercendo alguma influencia sobre mim. Não podia dizer que achava isso bom. Eu deveria ser o tipo de cara que fazia o que queria e tirava as próprias opiniões. Não era uma pessoa engajada. As coisas não deviam simplesmente me influenciar.

— Bom trabalho hoje — Rapp disse, irrompendo no quarto para pegar uns livros em sua escrivaninha antes do jantar.

— Eu fui lento — retruquei. — Vou melhorar da próxima vez.

Rapp sacudiu a cabeça como se não pudesse acreditar.

— Ah, sei lá — ele disse. — Você age como se não desse a mínima, e de uma hora para outra se torna competitivo. Como foram as coisas com Daxin?

— Tudo bem — respondi. Parte de mim queria desabafar com Rapp e conversar sobre como a tarde havia sido estranha, mas algo fez com eu me contivesse. — E como foi o resto da manutenção da rede?

— Uma em cada três áreas que atendi estava com defeito. Nunca vi uma situação tão ruim.

Despertei ao ouvir isso. Ele também havia percebido o claro índice de deterioração.

— Você vai fazer alguma coisa a respeito? — eu perguntei, tentando parecer mais neutro do que me sentia.

— Tipo o quê? Já coloquei isso em meu relatório de trabalho. A Academia sabe, o conselho sabe. O restante do planeta é que está determinado a não fazer nada. Os kabarakianos não enxergam o valor de um sistema de defesa que só cobre a cidade e os deixa expostos. E metade da população da cidade acha que só fazemos isso por diversão. Até onde eu me lembro, você é uma dessas pessoas, não?

Eu o ignorei.

— Se vamos fazer isso, é melhor fazermos direito. Certo? Senão, isso tudo de fatoé perda de tempo.

Rapp foi jantar, mas eu fiquei no quarto, pensando no show do Quarto Crescente na Chimæra e no bracelete de identificação de Daxin na mesinha de cabeceira, prontinha para o abate.

Pensei em Devektra. E descobri do que precisava para pôr minha cabeça em ordem. De uma festa.

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