Capítulo Três |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

— SE NÃO ESTIVESSE TÃO DECEPCIONADA, TERIA FICADO IMPRESSIONADA. — A diretora Osaria folheou uns papéis em sua mesa com o resumo das minhas infrações e prosseguiu lendo as acusações. — Acusação: adulteração do Registro Absência. Punição sugerida: expulsão. Acusação: mais de dez faltas por semestre. Punição sugerida: expulsão. — Ela olhou para mim. — Dez é apenas uma estimativa, claro. Ainda examinaremos os arquivos do Registro para fazer um cálculo preciso de quantas aulas você faltou.

— Por volta de dez mesmo — admiti.

— É melhor que você não esteja sendo sarcástico — meu pai retrucou, com a voz cansada, pelo monitor na parede do escritório de Osaria, onde a imagem de seu rosto era transmitida com ruído. Minha mãe estava sentada a seu lado, em silêncio. Eles estavam na casa de praia em Deloon e não podiam perder seu tempo precioso fazendo uma viagem de duas horas até a Capital para testemunhar pessoalmente minha expulsão.

— O que isso significa? — minha mãe perguntou.

Como se não soubesse. Eu já havia sido avisado antes. Matar aulas e entrar na Chimæra às escondidas era uma coisa – mas aquilo passava todos os limites.

Osaria girou na cadeira para encarar a tela.

— Isso significa que estamos de mãos atadas. Se fosse apenas uma das acusações, talvez eu pudesse exercitar minha discrição e amenizar a punição. — Ela franziu o cenho profundamente. — Mas, além das regras que infringiu na escola, ele também adulterou a identificação para entrar na Chimæra. Não tenho escolha.

— Ah, não. — Minha mãe gemeu; parecia prestes a chorar.

— Você está surpresa com isso?! — Meu pai estava ficando vermelho, quase tão bravo com minha mãe quanto estava comigo. — Ele sempre foi assim.

E era verdade. Sempre fui um infrator, sempre dava um jeito de me meter em encrenca. Isso não me envergonhava; eu gostava disso em mim. Mas as pessoas ao meu redor tendiam a ficar desconcertadas. Lorien era um planeta feliz e próspero, onde as leis eram respeitadas. O fato de estar sempre arrumando problemas me tornava quase uma aberração da natureza.

A diretora Osaria se mexeu desconfortavelmente na cadeira, constrangida com a discussão dos meus pais, e os interrompeu antes que pudessem prosseguir.

— Devo dizer que lamentarei muito a perda de Sandor. — Ela se virou para mim. — Questão da frequência à parte, você é um de nossos melhores alunos, e devo admitir que sua fraude ao sistema de segurança, embora ilegal e perigosa, mostra certa dose de… — ela faz uma pausa — engenhosidade. Agora, a meu ver, ele tem duas opções. Se escolher ficar na Capital…

— Sim — eu disse. — Não vou sair da cidade.

— … Então, podemos arrumar um lugar para ele como aprendiz nos Munis.

Meu coração afundou no peito. Nos Munis? Os Munis eram a corporação de custódia da força de trabalho da cidade. Trabalho de manutenção. A maioria dos cidadãos da Capital era convocada por sorteio para servir aos Munis durante o período de um ano, não mais do que duas vezes na vida. Prestar serviço nos Munis não era vergonha alguma para a cultura lórica, mas estava longe de minha concepção de diversão. E entrar como aprendiz era praticamente me alistar para recolher lixo pelo resto da vida. Para mim, era uma sentença pior do que a morte.

Senti que comecei a entrar em pânico.

— Tem que haver outra opção na cidade. Será que não posso arrumar um emprego na Kora ou na Chimæra?

Sabia que era demais pedir emprego em um dos lugares onde havia arranjando problemas por entrar ilegalmente, mas estava disposto a aceitar qualquer trabalho por lá, não importava quão ruim fosse. Eu esfregaria o chão se fosse preciso.

— Sim, é claro que há opções melhores! — minha mãe falou.

Fiquei surpreso em ouvi-la se pronunciar em minha defesa. Com pesar, Osaria fez que não com a cabeça.

— Infelizmente, todos os postos de emprego urbanos além do de aprendiz são reservados aos adultos. Ou ele vai para os Munis ou podemos alocá-lo em um Kabarak.

Achei que meu coração já havia chegado ao fundo do peito, mas o senti descer ainda mais e alcançar o estômago. Um Kabarak? Cumprir pena fora da cidade em um dos Kabaraks comunais de Lorien era uma parte importante da cultura lórica, além de essencial ao bom funcionamento do planeta, mas definitivamente não era uma experiência glamorosa: extração de loralite, criação de Chimæras, trabalho na lavoura. E tudo isso bem no interior, a quilômetros de distância de qualquer agitação. A menos que arrancar ervas e escavar a terra seja sua ideia de agitação.

Tive um mau pressentimento a respeito disso. Do outro lado da tela, meu pai assentia, parecendo quase satisfeito, e percebi que meu destino estava praticamente selado. Cumprir serviço em um Kabarak era considerado uma credencial nobre, além de pré-requisito para o trabalho no governo ou no Conselho de Defesa de Lorien, ajudando a proteger o planeta de um ataque de algum de nossos inimigos inexistentes.

Entre as opções igualmente terríveis, o Kabarak parecia ter ganhado a aprovação de meus pais.

— Osaria, acho que alguns anos em um Kabarak é tudo de que meu filho precisa — meu pai afirmou com um sorriso, de fato contente com o resultado da conversa.

Olhei para a tela, mas ele evitou meu olhar. Sabia exatamente como para mim era terrível escutar tudo aquilo. Nem minha mãe me tiraria dessa.

— Concordo — ela disse, me lançando um olhar furtivo como se pedisse desculpas. — É mesmo a melhor alternativa.

— Bem, então está decidido — confirmou Osaria.

Naquele momento, desejei mais uma vez ter nascido um Garde – com um Legado de voltar no tempo e desfazer todos os meus erros da noite passada.

Por outro lado, se eu desfizesse a noite, não teria conhecido Devektra. Talvez quase tivesse valido a pena. Bem, quase.

Saí do colégio e comecei a longa caminhada em direção ao apartamento vazio de meus pais. Ainda faltavam horas para passar o primeiro ônibus da escola até o centro da cidade, então tive que ir caminhando sozinho pelas ruas desertas.

Meus pais só voltariam de Deloon em algumas semanas e não estavam dispostos a vir à Capital para se despedir de mim. Provavelmente eu passaria os últimos dias por conta própria no apartamento, aguardando a convocação do Kabarak e os detalhes sobre o transporte. Esses detalhes talvez chegassem antes e dessem alguma pista do meu futuro: se o estado me arranjasse um transporte terrestre, eu seria encaminhado a uma colônia mais próxima, como Malka; se custeasse um meio de transporte aéreo, eu seria mandado para muito, muito longe, a um Kabarak nos Territórios Longínquos, do outro lado do planeta.

Não que isso fizesse alguma diferença. Exílio era exílio. E, mesmo depois que eu voltasse, meu futuro teria mudado para sempre. Sempre me imaginei arrumando um emprego fácil e tranquilo como os de Teev e Paxton, ou até trabalhando em um lugar como a Chimæra, mas a maioria das pessoas que servia em um Kabarak acabava em algum cargo no governo de Lorien.

Estremeci só de imaginar passar o resto de meus dias como um burocrata, carimbando papel em um escritório entediante como o do Conselho de Defesa de Lorien, desperdiçando minha vida na tentativa de conter uma invasão extraplanetária que todos sabiam que jamais aconteceria, enquanto procurava me animar fingindo que estava de fato fazendo algo importante.

Era inútil. Por enquanto, o melhor a fazer era tentar não pensar nisso. E seguir em frente.

A escola desaparecia atrás de mim à medida que os Pináculos de Elkin surgiam à frente, acenando em direção ao centro da cidade. Cogitei ficar por ali e esperar o ônibus. Seria uma chance de me despedir de meus amigos quando saíssem da aula. Mas a ideia me deprimiu demais para que eu me desse esse trabalho. Não suportava imaginar eles descobrindo que eu havia estragado tudo.

Além do mais, eu até gostava bastante de Adar, Rax e alguns dos outros garotos da escola, mas não os considerava minha galera de verdade. Eu sempre fui diferente, até deles. Todo mundo em Lorien parecia satisfeito com tudo o que tinha. Todos eram felizes por viver no planetinha mais perfeito de toda a droga do universo. Por que eu também não era assim?

Ainda chafurdava em meu mar não Lórico de autopiedade, quando escutei meu nome.

— Sandor — parei de andar e me virei, um homem desconhecido, alguns anos mais velho do que eu, estava parado próximo a um aerobarco Muni parado logo atrás de mim. — Você é Sandor?

Ele usava a túnica azul característica de um Cêpan Mentor, a classe especial de Cêpans do CDL responsável por treinar a Garde e monitorar o desenvolvimento de seus Legados. Não fazia ideia de como ele sabia meu nome, e na verdade nem desejava descobrir. Já tivera problemas demais no dia, e, pelo visto, aquele sujeito ia me avisar que eu havia cometido alguma nova infração sem nem ter percebido.

— Aham — eu disse. — Esse é o meu nome.

Sem esperar pela resposta, me virei de costas e continuei a caminhar.

Sem pedir permissão, ele começou a me seguir.

— Peço desculpas. Minha intenção era encontrá-lo na reunião com Osaria, mas cheguei atrasado — o homem disse.

Fiquei em silêncio.

— Eu me chamo Brandon — ele continuou. — Sou Cêpan Mentor na Academia de Defesa de Lorien…

— Desculpe, cara — eu disse. — Eu não sou um Garde. Só um Cêpan comum e chato. Não preciso de mentor. E levei bomba no teste de aptidão da ADL há alguns anos.

— Pois é — Brandon concordou — vi suas notas.

Ele levantou as sobrancelhas de maneira sugestiva, como se soubesse que fui mal de propósito nos exames, para escapar de ser despachado para a prestigiada Academia.

É claro que, comparado a um Kabarak, o treinamento de Mentores parecia uma opção muito boa àquela altura. Se eu soubesse o que estava reservado para mim, talvez tivesse pensado duas vezes antes de levar bomba naquele teste tantos anos antes.

— Ficamos sabendo das artes que você que aprontou — Brandon prosseguiu.

Olhei para ele com espanto. Como seria possível que houvessem ouvido falar das desventuras de um Cêpan menor de idade na Chimæra? Mas Brandon falava como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Ficamos impressionados — ele continuou. — Um trabalho tecnológico desse tipo é bem incomum para alguém de sua idade. Sobretudo alguém que não foi treinado na Academia. Se desenvolvesse seus talentos de forma mais séria, poderia ser de grande valia para os esforços de segurança de Lorien.

Lembrei por que não gostava dos caras da ADL. Eles se levavam muito a sério. Lorien nunca havia entrado em guerra. Nunca havíamos sido atacados. Ainda assim, essas pessoas agiam como se vivêssemos sob ameaça constante. Parecia que apenas se convenciam dessas coisas para se sentirem mais importantes.

— Ah, sei — eu disse, dando um aceno desdenhoso para Brandon. — Estou indo para um Kabarak. Espero que apreciem meus talentos por lá.

— Não vão — ele respondeu, dando de ombros. — Escute, a ADL precisa de sangue novo e mãos para trabalhar. Temos engenheiros e técnicos decentes, mas ninguém com seu talento para resolver problemas.

Revirei os olhos. Engenheiro na ADL? Era quase tão ruim quanto trabalhar nos Munis.

— Desculpe, cara. Não tenho interesse.

Continuei caminhando.

— Nossa reputação não é a mesma de antes, eu sei. — Brandon deu um sorriso irônico. Percebi que ele estava se divertindo com minha arrogância. — E é verdade que muitos lorienos questionam a necessidade de defesa em tempos de paz. Estão equivocados. Mas nós temos recursos, Sandor. Você teria acesso total a nossos laboratórios de computação e engenharia. Além disso, depois de seis meses ainda teria direito a sair aos fins de semana. E recebi autorização para convidá-lo a fazer parte da Academia, apesar do seu desempenho… extraordinariamente baixo no exame de aptidão.

Parei de andar.

— Você estaria perto da cidade — ele continuou. — Quem sabe? Talvez daqui a algum tempo, quando estiver um pouco mais velho, consiga umas folgas para ir à Chimæra.

Estava claro que Brandon tinha mais informações a meu respeito do que era possível obter pelos boletins de segurança que descrevia minhas façanhas na Chimæra. Ele estava tocando em meus pontos fracos de forma muito precisa.

— Você teve acesso ao meu perfil psicológico, Brandon?

Ele apenas sorriu.

— Só decida se prefere passar os últimos anos da adolescência brincando de tecnologia de defesa perto da cidade, utilizando seus reais talentos, ou nos Territórios Longínquos, catando bosta de Chimæra.

— Territórios Longínquos? — Senti minha boca secar. Por que ele disse aquilo? Será que ouvira alguma coisa a respeito de onde eu prestaria serviço? — Do que você está sabendo? — perguntei.

— Não se trata do que eu sei, Sandor. Trata-se do que posso fazer.

E, com isso, ele se virou e foi embora.

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