Capítulo Treze |Os Últimos Dias de Lorien – Pittacus Lore

O VEÍCULO SEGUIA RONCANDO E SACOLEJANDO SOBRE O CHÃO DE TERRA PELA ROTA programada até o Kabarak de Malka. Com o treco no piloto automático, eu estava livre para vasculhar a traseira à procura de uma arma. Não fazia a menor ideia se a segunda onda de ataque mogadoriano seria outra rodada de mísseis ou uma invasão por terra, mas imaginei que esperar armado não faria mal algum.

Infelizmente, só consegui encontrar uma faca comprida e afiada. Não era exatamente poderosa, mas era alguma coisa. Peguei também um módulo de informações extra, na esperança de que ele pudesse fornecer notícias sobre um novo ataque.

Eu acionei o dispositivo sem muitas expectativas, mas ele ainda captava transmissões esparsas e inconstantes. As que conseguiam chegar eram em geral dedicadas aos comunicados dos Munis sobre as tentativas de resgate na cidade.

Eles nos pegaram desprevenidos, exatamente como os Anciões haviam previsto. Mesmo agora, as pessoas pareciam não compreender isso. Nenhuma das transmissões que eu consegui captar fazia qualquer menção ao fato de que havíamos sido atacados – ou ao fato de que ainda não havia acabado.

Talvez o resto de Lorien ainda não tivesse consciência. Eu sabia a verdade, no entanto. Sabia o que tinha que fazer.

Eu salvaria o garoto ou morreria tentando.

O veículo encostou às margens de Malka, e atravessei o caminho de terra na escuridão. Não conseguia enxergar muita coisa, mas deixei que a memória me guiasse em direção à cabana onde o garoto morava com o avô. Quanto mais eu me aproximava, mais o bracelete localizador vibrava, sinalizando que eu estava na direção certa.

À distância, pude escutar o burburinho dos festejos do Quarto Crescente dos Malkanos. Eles ainda não sabiam. Por um breve instante, considerei correr até o Kabarak para avisá-los da invasão iminente e mandar que armassem. Mas eu não tinha tempo para isso, e, de qualquer forma, não faria diferença alguma. Eu precisava manter o foco. Isso se tratava da sobrevivência de toda a nossa raça. Brandon dissera que tinham que ser nove.

Quando cheguei à cabana, o garoto, o avô e a Chimæra saltitante não estavam em lugar algum. Mas o bracelete continuava a vibrar em meu braço. Caminhei em diferentes direções, testando a frequência da vibração, e consegui localizar a criança. Ela estava mais adiante na trilha.

Contornei um monte que dava em um campo estreito, em meio a outras colinas. Uma grande fogueira queimava nas proximidades, e, conforme me aproximava, vi o avô do garoto agachado perto dela. Ele olhou para mim. O garoto e o animal não estavam por ali.

O homem apontou para o banco ao lado dele. Nervoso, dei uns passos à frente e me sentei à beira da fogueira. Seja o que for que ele estava cozinhando, tinha um cheiro delicioso. Era quase de manhã, e eu não havia comido nada desde a sobremesa da noite anterior. Provocada pelo cheiro, minha boca começou a salivar.

— Coma — o homem ofereceu, apontando para a panela.

Fiz o que ele mandou e, com a concha de pedra que pendia para fora da panela, enchi uma pequena tigela de barro com o suculento ensopado.

— Está uma delícia — eu disse, balançando a cabeça em gratidão.

— Você veio por causa do meu menino.

— Isso mesmo — respondi, percebendo que ele sabia o tempo todo por que eu estava ali.

— Ele é tudo que tenho — o senhor disse. — Todos podem ver que há algo especial nele. Meu dom me permite raros vislumbres das teias do destino, e eu sempre soube que este dia chegaria. No dia em que conheci você, percebi que não demoraria muito tempo.

O bracelete de identificação de Daxin não parava de vibrar loucamente desde que eu havia me sentado, e o teclado disparou em seguida. Ali, na fogueira, com aquele homem forte e humilde me encarando, eu me senti um babão todo atrapalhado com a tecnologia.

— Um segundo — eu pedi, me sentindo um completo idiota. — Com licença.

Eu me levantei, puxei o módulo de meu bolso, olhei para baixo e lendo a última atualização. CONFIRMADA APROXIMAÇÃO DA SEGUNDA ONDA. ATAQUE DE MÍSSEIS SEGUIDO DE AÇÃO POR TERRA. Algum soldado da FDL sobrevivente, ou talvez um empregado dos Munis, enfim conseguira acessar a rede de comunicação e ativar o alerta verdadeiro.

Eu ainda tentava descobrir o que tudo isso significava, quando senti as pernas cederem sob meu corpo. O módulo saiu voando de minhas mãos e caiu no chão com um baque.

Mas era só o garoto, que havia investido contra minhas pernas e me jogado no chão. Ele era mais forte do que parecia e sabia disso. Atirou-se de costas na grama e riu com orgulho entusiasmado. O bracelete de metal em seu pulso cintilava à luz da fogueira.

— Peguei você! — o garoto exclamou.

Fiquei me perguntando se ele seria capaz de se lembrar daquela noite, e, caso se lembrasse, se seria com tristeza por tudo o que estava prestes a perder ou com alegria pelo que, pelo menos por mais alguns instantes, ainda possuía.

Dei um sorriso em resposta.

— Ainda não, amigão.

Resgatei o módulo caído na grama e me ajoelhei na terra para me levantar, com o fogo atrás de mim. Abri os braços e o garoto correu até eles, sem questionar. Eu o peguei no colo, e enquanto me levantava olhei para o avô por um breve instante. Ele me olhou de volta, com enorme tristeza.

Eu sabia que precisava ir embora. Mas ainda tinha que perguntar mais uma coisa.

— O senhor disse que seu Legado lhe permite ver o futuro — eu disse. — Consegue ver alguma coisa agora?

— Ele vai ser importante — o velho respondeu com tristeza. — Isso é tudo o que sei.

— E eu? — perguntei.

O homem sorriu, pesaroso.

— Você também vai ser importante — ele respondeu. — Mas vai morrer.

Eu sabia que ele estava certo. No entanto, estava tudo bem. Todos iríamos morrer. Pelo menos, eu morreria fazendo alguma diferença.

À medida que segui o caminho de volta até a van, os braços do garoto em torno do meu pescoço, virei a cabeça por cima do ombro e olhei pela última vez o homem que o criara. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, que escorriam pelas rugas profundas de suas bochechas cobertas de terra e molhavam a barba.

Então, a segunda onda de mísseis começou, explodindo à distância.

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